Na segunda palestra da 6ª Conferência Estadual RJ, realizada neste sábado (23), no Clube de Engenharia, no Centrou do Rio de Janeiro, o professor e psicólogo Felipe Faleiros, doutor em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB-MS), apresentou um panorama alarmante sobre o adoecimento mental na categoria bancária.
O especialista iniciou sua exposição mostrando dados sobre afastamentos do trabalho no Brasil. Segundo ele, entre 2024 e 2025 houve crescimento de 15% nos casos, índice que pode ser ainda maior devido às subnotificações. “Saúde é qualidade de vida. Temos que falar de prevenção e ação. As empresas precisam acolher esses trabalhadores. É preciso pensar em como recuperar a saúde das pessoas. O adoecimento é consequência da forma como o trabalho está organizado”, afirmou.
Felipe também criticou o que chamou de “mitificações” propagadas pelos bancos, como autonomia na gestão do tempo, aprendizado contínuo, meritocracia e flexibilidade de horários.
“A realidade é marcada pela ausência de limites de jornada, acúmulo de funções, metas inatingíveis e sobrecarga extrema, fatores que geram perda da identidade profissional. O bancário tornou-se apenas um vendedor de produtos e vive sob vigilância constante e ameaças de demissão”, criticou.
O psicólogo lembrou ainda que, mesmo com lucros crescentes, os bancos continuam fechando agências e reduzindo postos de trabalho.
Matriz do assédio moral
O palestrante apresentou dados da pesquisa que apontam o estresse ocupacional e estrutural imposto pelos bancos como parte de uma “matriz do assédio”, responsável pelo adoecimento dos trabalhadores.
“Há um estigma do descarte, com a marginalização do trabalhador adoecido”,6 afirmou. Segundo ele, quando uma agência é fechada, os funcionários transferidos passam a enfrentar ainda mais sobrecarga e insegurança.
“Os bancos tentam se colocar como entidades desassociadas da sociedade. Mas a culpa não é do indivíduo, e sim das empresas”, ressaltou.
De acordo com a pesquisa, as principais causas de afastamento na categoria são transtornos de ansiedade e quadros depressivos prolongados, que podem evoluir para transtornos afetivos mais graves, agravando ainda mais o adoecimento laboral.
Exploração sem distinção
Felipe Faleiros revelou que a incidência média de transtornos mentais na população brasileira gira em torno de 6%. Entre os bancários, porém, o índice ultrapassa 13%.
Outro dado destacado pelo pesquisador é que não há diferença significativa entre homens e mulheres no adoecimento no setor financeiro. “Os bancos estão explorando por igual”, afirmou.
Segundo a pesquisa, 83,9% dos entrevistados trabalham integralmente no regime presencial. Do total, 36,9% já foram afastados por transtornos psíquicos e 19,6% receberam diagnóstico psiquiátrico formal.
Embora os casos de doenças mentais tenham aumentado, a LER/Dort continua sendo uma das principais causas de afastamento.
“As questões psíquicas tomaram uma dimensão absurda”, alertou, ao criticar o “silêncio institucional” e a “cultura do medo” presentes no setor bancário. “Muitos trabalhadores evitam apresentar atestados6 médicos por medo deu demissão”, explicou.
O palestrante também relatou o impacto emocional vivido pela categoria.
“A sensação é a de um ‘casco de refrigerante vazio’. O trabalhador não encontra respaldo da empresa e evita até pedir ajuda aos colegas”, afirmou.
Os números apresentados pela pesquisa reforçam a gravidade do quadro: 59,4% consideram crítico o ambiente de trabalho; 58,4% avaliam negativamente as relações psicossociais; 67,2% criticam a organização do trabalho; 43,3% apresentam estresse crônico; 44,5% relatam danos físicos e psicológicos e mais de 61% sentem falta de reconhecimento5 profissional.
“Os níveis de adoecimento são ainda mais severos entre os trabalhadores da linha de frente, onde há maior pressão por desempenho e cobrança comportamental”, observou.
Felipe destacou ainda que a chamada “lua de mel” entre o bancário e a empresa dura pouco tempo.
“Ela não passa de um ano”, disse. Segundo a pesquisa, quase 90% da categoria continua trabalhando mesmo apresentando sintomas de adoecimento, enquanto mais da metade reconhece precisar de ajuda profissional.
“Mais de 64% realizam algum tipo de tratamento, mas mais de 65% estão sem acompanhamento médico adequado”, acrescentou.
Para o especialista, é necessário construir uma nova cultura organizacional. “É preciso investir em comunicação de qualidade, acolhimento aos trabalhadores adoecidos, romper o silêncio e fortalecer redes de confiança, como os sindicatos”, defendeu.
Situação piora a cada ano
O secretário de Saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles, também alertou para a gravidade da situação enfrentada pelos bancários.
“A gente visita as agências e vê diariamente os problemas apontados pela pesquisa científica, que nos ajuda inclusive no enfrentamento das negociações com os bancos. Esse debate precisa chegar à sociedade”, afirmou.
O dirigente sindical acusou os bancos de descumprirem tanto a legislação trabalhista quanto a Convenção Coletiva de Trabalho da categoria. “A cada ano a situação piora. Os bancos não conseguem mais esconder o adoecimento psíquico da categoria. São instituições que desrespeitam normas de saúde e segurança do trabalho e seguem sendo condenadas pela Justiça sem mudar suas práticas”, criticou.
Mauro Salles também mencionou o programa “Conduta Certo”, do Santander, criticado pelo movimento sindical por criar mecanismos de “meta negativa”.
“Se o cliente desiste do produto, isso impacta diretamente a remuneração variável e a avaliação do trabalhador, gerando medidas disciplinares”, afirmou. Segundo ele, o banco espanhol já foi condenado em duas instâncias da Justiça do Trabalho, mas mantém as práticas denunciadas pelos empregados.
“Existe uma competição predatória. As consequências sobre a saúde são graves e incluem problemas cardiovasculares. Muitos bancários sofrem ataques cardíacos sem relacionar o problema ao trabalho”, destacou.
Importância da mobilização
Mauro Salles defendeu maior participação dos trabalhadores na fiscalização das condições laborais. “A aplicação apenas formal da lei não resolve os problemas da categoria. É preciso controle social e participação efetiva dos trabalhadores”, afirmou.
O dirigente citou a NR-17, norma que trata da ergonomia e da proteção à saúde física e mental, e criticou o descumprimento da legislação pelos bancos. “O trabalhador acaba sendo obrigado a se adaptar ao modelo de gestão. Mas o trabalho é que deveria se adequar ao ser humano”, disse.Ele também criticou os serviços médicos patronais, que, segundo ele, muitas vezes desconsideram até laudos do INSS.
“Defendemos uma política efetiva de prevenção. É necessário mudar o modelo de metas, reorganizar o trabalho de acordo com as normas legais e garantir o cumprimento da legislação. Nas mesas de negociação os bancos não dizem ‘não’, mas criam mecanismos para protelar soluções”, afirmou.
Pacto pela saúde
Ao encerrar sua participação, Mauro Salles defendeu a construção de um pacto em defesa da saúde da categoria bancária. “Os bancos precisam reconhecer o nexo causal entre trabalho e adoecimento, democratizar o ambiente laboral, rever metas, avaliações e modelos de cobrança, além de emitir a CAT [Comunicação de Acidente de Trabalho] quando necessário”, afirmou.
“Propomos um pacto pela saúde baseado no cumprimento das normas e leis. Não dá mais para manter essa situação”, concluiu.

Fotos: Nando Neves

