DESAFIOS DA CATEGORIA

6ª Conferência Estadual RJ: “eleições de 2026 é disputa de projetos para o Brasil”, diz professor

Professor João Cezar de Castro Rocha afirma que é preciso politizar o debate público e os indicadores positivos da economia para ampliar a consciência da população e fortalecer a reeleição do presidente Lula

O professor João Castro, da UERJ, falou dos desafios da classe trabalhadora nas eleições 2026 que é derrotar o projeto ultraliberal da extrema-direita Fotos: Nando Neves

Bancárias e bancários do Estado do Rio de Janeiro deram início, na manhã deste sábado (23), à 6ª Conferência Estadual, organizada pela Federa-RJ (Federação das Trabalhadoras e Trabalhadores do Ramo Financeiro do Estado do Rio de Janeiro). Na sexta-feira (22), foi realizada a abertura solene do evento, no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro.

O lema deste ano é “Na Luta por Direitos, Soberania e Democracia”.

Eleições e disputa de projetos

O segundo dia da conferência acontece no Clube de Engenharia, no Centro do Rio. Após a leitura e aprovação do Regimento Interno, teve início o painel “Eleições de Outubro: análise de conjuntura e disputa de projetos”, com o escritor, historiador e professor da UERJ João Cezar de Castro Rocha, doutor em Letras e docente de Literatura Comparada.

O palestrante iniciou sua participação destacando a satisfação de participar de um evento do movimento sindical e afirmou que os sindicatos foram alvos tanto do golpe de 2016 quanto da tentativa de golpe de janeiro de 2023.

Proponho como mote dessa campanha a defesa da soberania”, afirmou. Segundo ele, a extrema direita internacional utiliza as redes sociais para chegar ao poder e se manter nele por meio de um “modelo de golpe institucionalizado”, baseado no controle de instituições, inclusyive do Judiciário.

Ao citar a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, o professor disse que é possível derrotar a extrema direita, embora considere o desafio complexo.

Foi uma frente ampla que permitiu a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, a mais importante da história recente”, declarou. Segundo o acadêmico, há um projeto de “pinochetização” do Brasil articulado pela extrema direita para as eleições de 2026.

Ele também avaliou que Lula “tornou-se ele mesmo a terceira via”, ao atrair para o campo progressista nomes como Marina Silva, Simone Tebet e o vice-presidente Geraldo Alckmin.

Mote deve ser a soberania

João Cezar afirmou que “o grande paradoxo do terceiro governo Lula” foi derrotar Jair Bolsonaro nas urnas sem conquistar maioria no Legislativo.

Cada deputado federal possui R$ 50 milhões para se reeleger”, criticou, em referência ao orçamento secreto.

Para o professor, o eixo central da campanha de 2026 deve ser a afirmação da soberania nacional. Ele ironizou ainda o roteiro do filme “Jair Bolsonaro: A Colisão dos Destinos”, afirmando que a produção pode acabar servindo de contraponto para reforçar a defesa da soberania nacional.

A campanha golpista da extrema direita nunca parou com a eleição de Lula em 2022. Se Bolsonaro tivesse vencido, nós não estaríamos aqui hoje”, afirmou.

Segundo o palestrante, “Bolsonaro não é um clã político, mas uma franquia”, associada ao avanço internacional da extrema direita impulsionada pelas redes sociais.

Interesses internacionais

João Cezar também afirmou que os interesses dos Estados Unidos vão além da disputa territorial e envolvem recursos naturais estratégicos, como minerais raros e água potável.

Bolsonaro não representa nada para Donald Trump. O que interessa são os minerais raros e a água”, declarou.

Papel do Estado

O professor lembrou que, em 1989, adversários políticos diziam que um líder sindical não poderia chegar à Presidência da República e afirmou que a grande mídia sempre foi hostil ao PT e ao presidente Lula, assim como ocorreu com Getúlio Vargas no Brasil e Juan Domingo Perón, na Argentina.

Sempre que uma candidatura faz avançar a pauta da classe trabalhadora, as elites se opõem”, afirmou.

Ao comparar momentos históricos, declarou: “Vargas precisou sair da vida para entrar para a história. Lula já está na história e vivo para ser reeleito”.

João Cezar também destacou o papel do Estado no desenvolvimento econômico e social, citando o crescimento do PIB brasileiro entre 1930 e 1980 e o atual modelo chinês. Segundo ele, pesquisadores chineses e coreanos estudaram a experiência brasileira para compreender a importância do Estado no desenvolvimento.

Politização da melhora econômica

O palestrante avaliou que a extrema direita ganha força ao dominar o imaginário social em torno da pauta da segurança pública, problema que classificou como real no país.

Ele também criticou o desmonte das estruturas do Estado durante o governo Bolsonaro e citou como exemplo a suspensão do Censo do IBGE naquele período. Em contraposição, mencionou os indicadores positivos da economia no atual governo, como crescimento do PIB e recuperação do emprego formal.

O problema é a percepção da população em relação aos números positivos da economia”, afirmou.

Segundo o professor, as redes sociais “não são apenas um meio de comunicação, mas também um poderoso processo de subjetivação”. Ele avaliou ainda que a extrema direita continuará forte e citou o governador Tarcísio de Freitas como um nome em ascensão no campo conservador.

O Brasil voltou a ser a oitava economia do mundo, mas continua entre as sociedades mais desiguais do planeta”, afirmou. Para ele, o país foi estruturado historicamente como uma “grande fazenda agroexportadora”.

João Cezar criticou ainda a crença em uma “burguesia nacional comprometida com um projeto popular”, classificando essa leitura como um erro histórico da esquerda brasileira, ao lembrar o golpe militar que derrubou João Goulart em 1964.

É preciso politizar as políticas públicas. O que está em jogo é a construção de um verdadeiro projeto de nação, evitando a ‘pinochetização’ do Brasil”, concluiu. “O presidente Lula precisa mostrar que aumento real de salários e crescimento do emprego formal só são possíveis com um governo progressista. É necessário politizar o debate público e os indicadores econômicos para consolidar a vitória ainda no primeiro turno”, completou.