PALESTRA DESMOTIVACIONAL

Metas altas e tempo perdido no Banco do Brasil

Em pleno andamento do 36º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (CNFBB), as queixas dos bancários continuar a chegar aos sindicatos. Agora a reclamação vem de uma palestra supostamente promovida para motivar o atingimento de metas. Entendam o caso.

Tempo só pra metas?

Quando ainda crianças, o tempo não passa de um trava-língua (sequência de palavras criada para ser difícil de pronunciar rapidamente, geralmente usada como brincadeira de infância): “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem…”, era o slogan.

Na vida adulta, porém, a realidade muda. Na sociedade capitalista, aprende-se rapidamente que “tempo é dinheiro”. No Banco do Brasil, na avaliação do movimento sindical, o tempo ganhou um novo significado: virou mais uma meta.

Segundo a direção do BB, “a má gestão do tempo seria um dos fatores que impedem o alcance das metas, cada vez mais ambiciosas” — ou irreais, dependendo do ponto de vista. Convicta dessa tese, a Super Investidor II — área de consultoria e gestão de investimentos para clientes de alta renda — promoveu uma palestra via Teams, a plataforma corporativa e educacional da Microsoft, com o objetivo de ensinar gerentes negociais a “administrar melhor o próprio tempo”.

Treinador de Marçal

Para a missão, foi contratado um coach que afirma ter treinado o ex-candidato à Prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal, que ficou conhecido por seu estilo agressivo e por episódios polêmicos, entre eles a cadeirada que recebeu do então também candidato à Prefeitura de São Paulo, o apresentador e jornalista José Luiz Datena (PSDB), durante a campanha eleitoral de 2024 para a Prefeitura de São Paulo. Resta saber se o aluno aprendeu bem a aula do mestre em sua forma de ser a agir.

Desperdício de dinheiro

“Repete isso no chat!”, expressava em voz alta o palestrante em tom de incentivo. Em pouco tempo, o chat foi tomado por frases de efeito como: “Aprenda a disciplinar o desapontamento emocional” e “A paz está no plano”.

Entre uma mensagem “motivacional” e outra, acompanhadas de citações bíblicas, o coach ainda disponibilizou o tempo da palestra para divulgar o seu contato para quem tivesse interesse em adquirir seus livros sobre o tema.

Resumo da ópera: o Banco do Brasil acaba de inaugurar uma nova modalidade de treinamento corporativo — o “Trava-Tempo”.

“Se a palestra foi paga, foi um dinheiro muito mal gasto pelo banco”: esse foi o sentimento relatado por inúmeros participantes, segundo o diretor executivo de Bancos Públicos do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e representante da Comissão de Empresa dos Funcionários do BB (CEBB), Alexandre Batista.

“A atividade esteve muito mais para uma palestra ‘desmotivacional’, segundo os participantes do evento”, afirmou o dirigente sindical.

“Ou seja: perda de tempo e, talvez, também de dinheiro”, rebate Alexandre, ao criticar a iniciativa da direção do banco, que, em sua avaliação, desperdiçou recursos em um momento em que o BB enfrenta prejuízos provocados pela inadimplência do agronegócio para com a instituição financeira pública.

“Terminada a apresentação, muitos funcionários provavelmente precisarão reservar mais algum tempo para ler Em Busca do Tempo Perdido (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust, um clássico da literatura francesa e universal”, ironizou Alexandre.

“Em tempos de contenção de despesas, o Sindicato buscará apurar quanto custou essa palestra e qual foi sua real necessidade, ainda que a participação tenha sido facultativa. Porque, convenhamos, o verdadeiro problema não é a gestão do tempo, mas a imposição de metas cada vez mais distantes da realidade, que vêm adoecendo os bancários”, concluiu o sindicalista carioca.