CAMPANHA NACIONAL 2026

Encontro prioriza combate à reestruturação, que demite e adoece trabalhadores do Santander

Bancários debatem ainda, conjuntura política e os impactos das transformações do sistema financeiro no trabalho da categoria

Os 75 representantes dos funcionários e funcionárias do Santander de todo o país definiram a defesa do emprego e o fim do adoecimento mental dos bancários em função das metas desumanas, como prioridades da campanha nacional 2026 Foto: Contraf-CUT

O Encontro Nacional dos funcionários do Santander, realizado Hotel Holiday Inn Parque Anhembi, em São Paulo, que contou com 75 delegadas e delegados, apresentou análises de técnicas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Rosângela Vieira e Paula Reisdorf,, sobre o desempenho do Santander e as transformações em curso no modelo de negócios da instituição, apontando que, mesmo em um cenário econômico de crescimento moderado e juros elevados, o banco espanhol tem mantido, no Brasil, elevados níveis de rentabilidade ao mesmo tempo em que acelera a digitalização, fecha unidades físicas e reduz postos de trabalho.

Clientes de alta renda

Rosângela Vieira disse que, embora o Santander tenha registrado lucro líquido recorrente de R$ 3,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, a estratégia adotada pela instituição está baseada em um modelo mais seletivo e automatizado, voltado aos clientes de alta renda e sustentado por uma forte redução de custos. “O banco continua extremamente rentável, mas essa rentabilidade vem acompanhada de uma profunda transformação operacional. A aposta em clientes de maior renda, na digitalização e no uso crescente da inteligência artificial tem sido acompanhada pelo fechamento de agências e pela redução dos quadros de pessoal”, destacou.

Fechamento de agências e demissões

Rosângela observou ainda que a instituição encerrou, somente em 2025, 323 agências e 256 postos de atendimento, além de reduzir em 10% o número de empregados efetivos, enquanto ampliou em 11% o contingente de terceirizados. “Os trabalhadores que permanecem no banco convivem com um aumento das atribuições, maior pressão por metas e um ambiente cada vez mais desgastante. Esse processo tem reflexos diretos sobre a saúde física e mental dos bancários e aumenta os riscos de adoecimento”, alertou.

Paula Reisdorf chamou a atenção para a mudança estrutural ocorrida no grupo Santander ao longo da última década. Segundo ela, a instituição promoveu uma verdadeira “desbancarização” da força de trabalho, transferindo atividades para subsidiárias e empresas controladas que não estão enquadradas na categoria bancária.

“Em 2015, cerca de 90% dos trabalhadores do grupo eram bancários. Hoje, essa proporção caiu para aproximadamente 50%. O banco criou ou adquiriu dezenas de empresas e deslocou uma parcela importante das atividades para estruturas com custos menores e direitos reduzidos”, explicou. A economista  destacou que trabalhadores dessas subsidiárias estão submetidos a jornadas mais extensas e benefícios significativamente inferiores aos garantidos pela convenção coletiva dos bancários. “Há uma clara estratégia de substituição de empregos bancários por vínculos mais precarizados. Enquanto os custos com pessoal do banco diminuíram, as despesas com empregados das controladas cresceram mais de 120% nos últimos anos, evidenciando a transferência das atividades para estruturas mais baratas”, afirmou.

Prática global do Santander

Paula também disse ainda que o fechamento de unidades físicas pelo Santander ocorre em todos os países em que a empresa espanhola atua, inclusive em seu país de origem, a Espanha. Entre 2019 e o primeiro trimestre de 2026, a instituição encerrou 63% das suas agências no Brasil. Após um período de expansão entre 2020 e 2024, o banco eliminou quase seis mil postos de trabalho em 2025 e outros 554 apenas nos primeiros meses deste ano. “Os números mostram um modelo de negócios cada vez mais enxuto, automatizado e dependente da terceirização. A questão que se coloca é quais serão os limites desse processo e quais os impactos sobre os trabalhadores e sobre o atendimento à população”, concluiu.

Pauta de reivindicações

No período da tarde, os participantes se dedicaram à discussão e consolidação das propostas que irão compor a minuta específica de reivindicações dos trabalhadores do Santander, que será entregue ao banco na segunda-feira (21). Também foram definidos os encaminhamentos e as estratégias que orientarão a Campanha Nacional dos Bancários 2026.
A coordenadora da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Santander, Ana Marta Lima destacou que o encontro reforçou a importância da construção coletiva das reivindicações e do fortalecimento da mobilização para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho. “Este encontro mostrou, mais uma vez, a capacidade de organização dos trabalhadores do Santander. Conseguimos construir uma pauta que dialoga com os desafios atuais da categoria, incorporando novas demandas relacionadas à saúde, defesa do emprego e às condições de trabalho. Agora, nosso compromisso é transformar essas reivindicações em avanços concretos na renovação do Acordo Coletivo, fortalecendo direitos e ampliando conquistas para todos os bancários”, afirmou.

Conjuntura e desafios para 2026

Antes do painel com as economistas do Dieese, o encontro dos trabalhadores do Santander teve a primeira mesa de debates com uma análise da conjuntura política, econômica e social e seus reflexos para a categoria bancária, com a participação da vereadora paulistana Luna Zarattini (PT), a mulher mais votada da história do partido na capital paulista, com 100.921 votos nas eleições municipais. Educadora popular e militante, Luna atribuiu o resultado histórico ao trabalho realizado nas periferias e à mobilização dos movimentos populares e das comunidades.

Renovação política

Luna defendeu ainda, uma renovação política, mas com a combinação entre novas lideranças e a continuidade das lutas históricas dos trabalhadores. “Acho importante ter renovação da política, com gente jovem entrando cada vez mais, mas sem esquecer de tudo que foi feito. Temos que seguir o legado e as lutas coletivas dos que vieram antes de nós. É assim que a gente vai construir o futuro”, afirmou a parlamentar petista. Ela criticou a lógica de austeridade fiscal e defendeu que o orçamento público seja direcionado para investimentos em áreas sociais, como saúde, educação, habitação e programas de distribuição de renda. Para ela, a ampliação dos direitos sociais e trabalhistas exige maior participação popular e enfrentamento das políticas que privilegiam grandes corporações. Destacou também a importância das eleições de 2026 para a continuidade de políticas públicas promovidas pelo governo Lula e citou medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a regulamentação do trabalho por aplicativos e o debate sobre o fim da jornada 6×1. “É óbvio que esse legado do PT, esse legado do presidente Lula, assusta as elites nacionais e as elites internacionais. E a gente já tem avanços importantes, como a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil por mês, cobrando do andar de cima. O avanço que a gente tem também em discussões que estão na mesa, como a questão do empreendedorismo, dos entregadores, dos motoristas de aplicativo, e ainda dizer que o Lula bateu no peito para encarar a luta pelo fim da jornada 6×1”, acrescentou.

Mobilização popular

Segundo a parlamentar, será necessário ampliar a mobilização popular e fortalecer a representação no Congresso Nacional para viabilizar novos avanços sociais. “A gente vai precisar avançar ainda mais em todos os programas sociais que temos. Vamos precisar de mais pressão popular para aumentar nossas bancadas, reverter essa cara de Congresso inimigo do povo e garantir que um eventual quarto mandato do presidente Lula seja um governo de avanços, como ele pode ter”, afirmou.

Luna encerrou sua participação ressaltando que a disputa política em curso exigirá unidade e organização dos setores progressistas. “A gente precisa ter o entendimento de que a disputa política que estamos travando é séria, forte e combativa. Com certeza teremos reação do lado de lá, por isso precisamos de muita união para avançar em diversos aspectos para o nosso país”, concluiu.

jornadas mais extensas e benefícios significativamente inferiores aos garantidos pela convenção coletiva dos bancários.

Mudanças no emprego bancário

A vereadora petista disse ainda que h[a uma clara estratégia de substituição de empregos bancários por vínculos mais precarizados. “Enquanto os custos com pessoal do banco diminuíram, as despesas com empregados das controladas cresceram mais de 120% nos últimos anos, evidenciando a transferência das atividades para estruturas mais baratas”, afirmou.

Paula também ressaltou que o Santander lidera o fechamento de unidades físicas entre os países em que atua. Entre 2019 e o primeiro trimestre de 2026, a instituição encerrou 63% das suas agências no Brasil. Após um período de expansão entre 2020 e 2024, o banco eliminou quase seis mil postos de trabalho em 2025 e outros 554 apenas nos primeiros meses deste ano. “Os números mostram um modelo de negócios cada vez mais enxuto, automatizado e dependente da terceirização. A questão que se coloca é quais serão os limites desse processo e quais os impactos sobre os trabalhadores e sobre o atendimento à população”, concluiu.