O ex-diretor do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, Marcello Azevedo, foi o segundo palestrante da abertura conjunta dos encontros regionais da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, realizada neste sábado, 9 de maio, no auditório da entidade. Funcionário aposentado do BB, Marcelo é doutor em Relações Internacionais pela Uerj e autor do livro As Finanças do Dragão: o Sistema Financeiro Chinês. Durante o encontro, lançou ainda sua mais nova obra, Águas da China: a modernização chinesa.
Azevedo iniciou sua fala afirmando que “outro mundo alternativo é possível”, em referência à decadência do capitalismo liberal nos Estados Unidos e à ascensão da China e dos Brics — bloco de economias emergentes formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — no mercado global. O grupo avança no comércio internacional sem adotar o dólar como moeda de referência.
Papel dos bancos públicos
Marcelo destacou que atualmente existem 551 instituições financeiras públicas no mundo atuando como instrumentos dos Estados para financiar o desenvolvimento das nações, segundo pesquisa da Universidade Tsinghua, em Pequim, uma das principais instituições de pesquisa do planeta.
“A China tem como pilar de seu desenvolvimento três grandes bancos públicos estatais, sem participação de capital privado: o Banco de Desenvolvimento, o Banco Rural e o Banco de Exportação e Importação. Mesmo nas instituições financeiras regionais e locais, a participação privada chega, no máximo, a 30%”, explicou.
Fundado em 1984, o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC – Industrial and Commercial Bank of China) lidera o setor financeiro chinês, com ativos superiores a US$ 5,6 trilhões, oferecendo serviços comerciais, corporativos e pessoais. O Bank of Communications (também conhecido como BoCom ou BankComm) é uma das instituições financeiras mais antigas, fundada em 1908. É um banco estatal de grande porte, listado nas bolsas de Hong Kong e Xangai, com atuação global e forte presença no financiamento corporativo.
“Os maiores bancos públicos do mundo financiam o maior desenvolvimento do mundo”, ressaltou Azevedo. A China tem hoje os quatro maiores bancos pró-ativos totais no mundo.
Estado define financiamentos
Ao defender que o Estado chinês é o principal indutor do desenvolvimento econômico do país, Marcelo afirmou que os maiores bancos daquele país financiam e qualificam as demais instituições financeiras, enquanto o governo define as prioridades estratégicas para cada um dos bancos rurais e locais.
“Os bancos públicos chineses estão financiando, por exemplo, um novo processo de urbanização para redesenhar e redefinir o papel das mil maiores cidades e vilas chinesas no desenvolvimento do país, inclusive com projetos de transição energética. O Banco de Exportação e Importação da China, um dos maiores financiadores do comércio internacional, investe em portos, contêineres e navios”, afirmou.
Somente o Banco Rural chinês financia a urbanização de favelas, construções de moradias populares, industrialização e ciência e tecnologia rural, retirada de milhões de pessoas da pobreza e reorganização de moradores de áreas degradadas para locais seguros, entre outras áreas de desenvolvimento econômico e social.
O palestrante também citou o avanço das empresas automotivas chinesas, destacando a negociação entre a chinesa Leapmotor e a franco-italiana Stellantis, avaliada em cerca de 1,5 bilhão de euros, além da compra da sueca Volvo pela chinesa Zhejiang Geely Holding (Geely), em 2010, por US$ 1,8 bilhão, após a montadora ter pertencido à americana Ford, entre outras empresas de origem europeia.
Privatizações no Brasil
Ao comparar os sistemas financeiros chinês e brasileiro, Marcelo argumentou que, enquanto a China fortaleceu o papel dos bancos públicos para impulsionar sua economia, o Brasil restringiu essa atuação por meio das privatizações.
“É evidente que o BNDES sozinho não dá conta da demanda de investimentos de que o Brasil necessita”, destacou. Lembrou que, em 1990, o Brasil tinha vários bancos regionais e estaduais que financiavam a infraestrutura local e que foram privatizados, especialmente durante o governo FHC, citando o impacto da venda do Banerj para o Itaú Unibanco por R$ 311,1 milhões, processo que resultou na perda de empregos dos bancários e na decadência econômica do estado.
“Nos anos 1990, a China passou a estruturar um modelo semelhante ao que o Brasil possuía, chegando a oito bancos nacionais de desenvolvimento, além de diversos bancos regionais e locais”, acrescentou, ao apontar diferenças entre os caminhos adotados pelos dois países nas últimas décadas.
“Privatizar para quem? O Brasil carece hoje de financiamento público, e os defensores das privatizações chegam a utilizar manipulações de balanços para justificar a venda de instituições públicas”, criticou, dando como Exemplo as privatizações do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), em São Paulo.
Marcelo afirmou ainda que “o que estamos vendo chegar ao Brasil é apenas a primeira onda tecnológica chinesa”. Segundo ele, a China possui quatro dos cinco maiores bancos corporativos do mundo. “Até os Correios chineses funcionam como banco, com 40 mil postos de atendimento. Não há banco local chinês que empregue menos de 300 mil funcionários”, afirmou.
Ao encerrar sua palestra, deixou três perguntas referentes ao sistema financeiro nacional: “A quem os bancos devem servir? Nossos bancos públicos têm condições de garantir o desenvolvimento do Brasil? Os bancos públicos brasileiros hoje têm alguma diferença em relação aos bancos privados de nosso país?”, questionou.
O palestrante é autor dos livros “Águas da China: a modernização chinesa”, recém lançado, e “As Finanças do Dragão, o sistema financeiro chinês”. As obras podem ser adquiridas através do site da Editora Dialética: https://loja.editoradialetica.com.
