DESRESPEITO COM A CATEGORIA

Na 5ª negociação, Caixa apresenta proposta indecente para o Saúde Caixa e mais nada

Direção da empresa quer dobrar a participação dos empregados no custeio do plano de saúde. Sindicatos orientam intensificar a mobilização para pressionar o banco a apresentar respostas globais na rodada do dia 14

A CEE-Caixa rejeitou,em mesa, a proposta da direção da empresa, que dobra os custos dos empregados com o Saúde Caixa, considerada absurda e indecente Foto: Paulo Flores/Contraf-CUT

A Comissão Executiva dos Empregados da Caixa Econômica Federal (CEE/Caixa) participou, nesta quarta-feira (5), em São Paulo, da quinta rodada de negociação com a direção do banco. Embora o tema principal da reunião fosse o Saúde Caixa, os representantes dos trabalhadores esperavam que a empresa apresentasse uma proposta global para o conjunto das reivindicações da categoria. No entanto, repetindo a postura adotada pela Fenaban na terça-feira (4) e pelo Banco do Brasil na quarta-feira (5), a Caixa frustrou as expectativas e desrespeitou a categoria ao não apresentar nenhuma resposta às reivindicações econômicas, de carreira, saúde, condições de trabalho e diversidade constantes da minuta entregue pelos empregados.

“Encerramos a quinta rodada de negociação e, embora o tema principal fosse o Saúde Caixa, cobramos logo na abertura da reunião as devolutivas sobre todas as reivindicações já apresentadas, mas o banco não trouxe nenhuma resposta. Em relação ao Saúde Caixa, limitou-se a apresentar uma análise sobre o impacto financeiro das nossas propostas no capital da empresa, mas rebatemos deixando claro que a Caixa não possui apenas capital financeiro; seu maior patrimônio é o capital humano”, afirmou o diretor do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e membro da CEE/Caixa, Rogério Campanate.

Proposta indecente

A proposta apresentada pela empresa para o Saúde Caixa foi recebida com indignação pelo movimento sindical. Em vez de ampliar a participação da empresa no custeio do plano ou apresentar uma solução para o fim do teto estatutário, o banco propôs aumentar significativamente a contribuição dos empregados.

Segundo Rogério Campanate, a direção da Caixa havia prometido apresentar uma proposta que valorizasse os empregados. No entanto, as federações rejeitaram, por unanimidade e ainda durante a reunião, a proposta considerada inaceitável. “Nosso entendimento é que essa proposta é profundamente desrespeitosa com quem constrói o banco todos os dias. Ela não apresenta uma solução equilibrada para o Saúde Caixa. Simplesmente transfere a conta para os empregados”, afirmou a coordenadora da CEE/Caixa, Luiza Hansen.

Pela proposta da empresa, o teto de participação dos empregados no custeio do plano passaria de 7% para 14%. Já a contribuição do titular subiria de 3,5% para 5,5%. O valor cobrado dos dependentes diretos aumentaria de R$ 480 para R$ 870; dos dependentes indiretos, para R$ 930; e dos filhos entre 24 e 27 anos, para R$ 1.050.

A cobrança continuaria sendo feita em 13 parcelas anuais, o que representaria perda significativa de renda para os trabalhadores. Mesmo que a categoria conquiste reajuste correspondente à inflação acrescida de 5% de aumento real, conforme reivindica a minuta da Campanha Nacional, o aumento das contribuições ao Saúde Caixa consumiria boa parte desse ganho e, em muitos casos, elevaria ainda mais o comprometimento da renda dos empregados.

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Fim do teto e 70/30 são a solução

Os dados do Relatório de Administração do Saúde Caixa mostram que a participação dos beneficiários no custeio já está muito acima dos 30% previstos no modelo histórico de financiamento, baseado na proporção de 70% para a empresa e 30% para os usuários. Em 2025, a contribuição líquida da Caixa foi de aproximadamente R$ 2,02 bilhões. As mensalidades pagas pelos beneficiários somaram R$ 1,39 bilhão, enquanto as coparticipações alcançaram R$ 303,6 milhões. Considerando apenas essas receitas regulares, a Caixa respondeu por cerca de 54% do financiamento do plano, enquanto empregados, aposentados e pensionistas arcaram com aproximadamente 46% dos custos. Essa distorção decorre do teto estatutário que limita a participação da empresa a 6,5% da folha de pagamentos e proventos, regra criada durante o governo Michel Temer. Como as despesas médicas crescem acima da evolução da folha salarial, a participação da Caixa permanece limitada e uma parcela cada vez maior dos custos acaba sendo transferida aos usuários.

Por isso, os sindicatos consideram o fim do teto estatutário e o restabelecimento efetivo do modelo 70/30 algumas das principais reivindicações da campanha Põe Mais Dinheiro, Caixa!”, aprovada no 41º Conecef (Conferência Nacional dos Empregados da Caixa).

“Essa proposta é tão absurda que foi rejeitada ainda na mesa de negociação. Ela sequer merece ser levada para avaliação das bases. É fundamental que empregados e empregadas acompanhem as informações sobre a negociação e participem da mobilização até a próxima rodada, marcada para o dia 14”, destacou Campanate. O dirigente reforçou que a intensificação da mobilização será fundamental para superar o impasse criado pela direção da Caixa durante a Campanha Nacional.

Análise do Dieese

O Saúde Caixa registrou déficit operacional de R$ 627,8 milhões em 2025, resultado de despesas de R$ 4,39 bilhões frente a receitas de R$ 3,76 bilhões. O exercício só apresentou resultado contábil positivo após a incorporação de R$ 581,1 milhões provenientes de contribuições patronais relacionadas a ações judiciais e acordos trabalhistas de anos anteriores, além da utilização de R$ 46,7 milhões da Reserva Técnica.

Na avaliação do Dieese, esses recursos extraordinários não representam uma solução estrutural para o plano. O estudo aponta que o aumento da idade média dos beneficiários, da utilização dos serviços, da complexidade dos tratamentos, da incorporação de novas tecnologias e da inflação médica continuará pressionando os custos.

O custo médio anual por beneficiário passou de R$ 9.854, em 2022, para R$ 15.824,24, em 2025, crescimento acumulado de 60,6%. Apenas entre 2024 e 2025, o aumento foi de aproximadamente 23,5%. Para o Dieese, essa nova realidade exige uma ampliação efetiva da participação financeira da Caixa no custeio do plano, e não a transferência de custos para os beneficiários.

A pressão financeira permaneceu em 2026. Até maio, o Saúde Caixa acumulava déficit de R$ 222,2 milhões, com despesas próximas de R$ 1,8 bilhão.

Cresce adoecimento por metas

Os dados do relatório também revelam um crescimento expressivo da demanda por atendimento em saúde mental. Em 2025, a psicologia respondeu por 60,3% dos custos da linha de terapias. Foram realizados mais de 1,67 milhão de procedimentos, com aumento de 48% no número de sessões.

Para a CEE/Caixa, esses números refletem também as condições de trabalho enfrentadas pelos empregados, marcadas pela redução do quadro de pessoal, sobrecarga, pressão por metas e adoecimento.

O Dieese ressalta que, quando a organização do trabalho contribui para o adoecimento dos empregados, a empresa deve assumir sua responsabilidade tanto na prevenção quanto no financiamento dos tratamentos. Por isso, a representação sindical reivindica que a Caixa custeie integralmente os tratamentos relacionados às doenças classificadas como B91 — benefício concedido quando a doença ou lesão possui nexo com o trabalho.

Empregados apresentam alternativas

A CEE/Caixa ressaltou que não se limitou a rejeitar a proposta da empresa. A própria minuta de reivindicações apresenta alternativas para enfrentar o déficit do Saúde Caixa sem inviabilizar o plano e sem transferir todo o ônus aos empregados. Além da revisão do modelo de custeio, os representantes dos trabalhadores reivindicam novas contratações, a inclusão dos empregados admitidos após setembro de 2018 no direito à manutenção do Saúde Caixa na aposentadoria com participação da empresa, a ampliação da rede credenciada, maior transparência na gestão do plano e a preservação dos princípios do mutualismo, da solidariedade e do pacto intergeracional. A CEE/Caixa também voltou a cobrar que a direção do banco apresente respostas às demais reivindicações da campanha, priorizando a valorização de seus empregados.

A próxima rodada de negociação está marcada para 14 de agosto, quando a expectativa dos trabalhadores é que a Caixa apresente propostas concretas para o conjunto da pauta da Campanha Nacional.

Rogério Campanate, diretor do Sindicato do Rio de Janeiro e membro da CEE (segundo à direita) fez duras críticas à postura da direção da Caixa na mesa de negociação

Foto: Willy Roberto

*Matéria com informações do jornalista Paulo Flores, da Contraf-CUT