Evento é em homenagem ao comunicador popular Vito Gianoti

Será no dia 24, o Festival da Comunicação Sindical e Popular

Entusiasta da imprensa operária e sindical, onde atuou grande parte da vida, Vito ampliou seus ideais com a fundação do Núcleo Piratininga de Comunicação.

Vito costumava dizer que “um sindicato ou partido sem jornal é um exército sem armas”. Foto de divulgação.

“Não há tema mais central em um momento de domínio das redes sociais pela direita, aliança de empresários com a extrema direita para retirar direitos dos trabalhadores e boa parte da população se voltando contra os ideais humanistas”. A afirmação foi feita pela coordenadora do Núcleo Piratininga de Comunicação, a jornalista Claudia Santiago, numa referência ao V Festival da Comunicação Sindical e Popular, no dia 24 de julho, na praça da Cinelândia, organizado pelo NPC.

Claudia lembrou que a data foi instituída como Dia Municipal da Comunicação Popular há 10 anos em homenagem ao comunicador popular Vito Giannotti, falecido em 24 de julho de 2015. Entusiasta da imprensa operária e sindical, onde atuou grande parte da vida, ampliou seus ideais com a fundação do Núcleo Piratininga de Comunicação. O tema de 2026 é “A comunicação popular e sindical na batalha das ideias”, um tema fundamental, como destacou Claudia Santiago em entrevista recente ao Brasil de Fato.

Participação do movimento sindical – Entre as barracas confirmadas estão a da Fundação Rosa Luxemburgo, as dos sindicatos dos professores das escolas privadas (Sinpro), trabalhadores das telecomunicações (Sinttel), servidores do judiciário federal (Sisejufe), profissionais de educação do estado (Sepe), técnico-administrativos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Sintufrj), trabalhadores do ramo financeiro (Federa), trabalhadores da indústria de frios (Sintrafrio), trabalhadores no comércio de minérios e derivados de petróleo (Sitramico), engenheiros (Senge). Do coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes) e da organização BEM TV.

Entre os movimentos populares estarão o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento Unidos dos Camelôs (Muca), Movimento das Comunidades Populares (MCP), Central dos Movimentos Populares (CMP) e barracas da comunicação alternativa e da Comunicação Popular.

“E atenção: quem quiser enviar seus materiais para serem expostos na barraca do NPC, só falar com a gente!”, avisa  Claudia.

Trajetória – Ex-metalúrgico, Vito foi autor de 30 livros, como “O que é jornalismo sindical”, “Muralhas da Linguagem” e “História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil”. Seu legado faz com que neste dia 24 se comemore no Rio de Janeiro o Dia Municipal da Comunicação Popular.

Vito Giannotti nasceu no Comune de Lucca, na Itália, em 1943. Chegou no Brasil com um grupo de padres operários dissidentes da Igreja Católica. Passou pela França e por Israel antes do Brasil, que elegeu como seu novo lar.

Em Vitória, no Espírito Santo, trabalhou como pescador. Depois, sua paixão pela luta dos trabalhadores o levou para São Paulo, onde se tornou metalúrgico e militante dentro das fábricas. Crítico da estrutura sindical de origem varguista, participou ativamente da Oposição Sindical Metalúrgica, que contrariava o “comando pelego” de interventores da ditadura militar.

Para que as propostas sobre um novo sindicalismo e sobre a luta de classes fossem compreendidas e assimiladas, se tornou um especialista da comunicação. Através de boletins, panfletos e jornais operários, fazia com que as informações chegassem aos trabalhadores, mas sem abandonar o olho no olho.

Torneiro mecânico – Em São Paulo, depois de estudar tornearia, começou a trabalhar em fábricas como ajudante geral, para depois virar torneiro de fato, profissão que exerceu por 25 anos. Em 1974, foi preso pelo regime militar com dezenas de outros metalúrgicos, devidos suas atuações no sindicato, nas assembleias e na distribuição dos boletins. Após a prisão, ele e os demais permaneceram na mira do DOPS, o que desmobilizou temporariamente a Oposição Sindical.

Em 1978, Vito denuncia as fraudes na eleição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, então dominado pela estrutura “pelega” que se subordinava à ditadura – conforme mostra o documentário “Braços Cruzados, Máquinas Paradas“, de Sérgio Toledo e Roberto Gervitz.

No ano seguinte, a Oposição vira modelo de sindicalismo para o país, mudando a estrutura de organização dos trabalhadores e contribuindo para as primeiras grandes greves gerais da categoria.

Imprensa Operária – Além de figura importante nas fábricas, Vito se interessou pela imprensa operária, sendo responsável pela produção e publicação de jornais como o Luta Operária, extinto após o Ato Institucional 5 (AI-5) — que, entre outros efeitos, oficializou a censura. Na clandestinidade, as publicações, com outros nomes, continuaram a circular, sendo entregues nas portas de fábricas cedinho, antes da entrada dos trabalhadores.

De 1972 à 1974, a intensificação da repressão fez com que as publicações fossem extintas, até retornarem com o jornal Luta Sindical, que durou de 1976 à 1984. Os jornais tinham a dupla função de formar e informar.

Como intelectual e leitor de Marx, Bordiga, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Trotsky e Lênin, Vito levava esses autores para discussões em reuniões de greves. Transformou publicações em formato de “caderninhos”, que cabiam no bolso do uniforme dos operários, muitas vezes semi-analfabetos. Assim, ajudou a popularizar o marxismo entre os trabalhadores.

Dirigente da CUT – Após a experiência com a comunicação operária, Vito foi diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Paulo e, em 1992, fundou o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), no Rio de Janeiro. Lá, mergulhou no que foi a sua paixão desde o início, e passou também ensinar a comunicação popular.

A ideia inicial foi de sua companheira, Claudia Santiago. Assessora da CUT no Rio de Janeiro. Ela era apaixonada pela comunicação com os trabalhadores e responsável por boletins diários, jornais semanais e mensais, além de cursos de formação.

A grande marca de Vito no Núcleo, segundo Claudia, foi o curso de história das lutas dos trabalhadores. Inicialmente, foi idealizado por ela e desenvolvido para jornalistas de sindicatos, visando a necessidade de se entender a história do Brasil. “Tudo o que eu não sabia, eu coloquei no sumário do curso. Ele desenvolveu o curso em cima das minhas necessidades”.

*Com informações do Núcleo Piratininga de Comunicação e do Brasil e Fato.