O Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e a Federa-RJ (Federação das Trabalhadoras e dos Trabalhadores no Ramo Financeiro do Estado do Rio de Janeiro), vão criar um grupo de trabalho para acolher e apoiar bancários, mães e também pais de filhos neurodivergentes. O anúncio foi feito na abertura da palestra da neuropsicóloga e psicóloga cognitivo-comportamental Cler Orbato, realizada na segunda-feira (20), no auditório da CUT-RJ.
A flexibilização da jornada dessas trabalhadoras e trabalhadores para o cuidado com os filhos neurodivergentes é uma das reivindicações do Comando Nacional dos Bancários nas negociações da Campanha Nacional com a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos).
“Vamos criar um grupo com bancários mães e pais de filhos neurodivergentes para apoiar e acolher esses companheiros, ouvir suas necessidades e buscar formas de conciliar o trabalho com o cuidado que seus filhos exigem”, afirmou o diretor executivo de Saúde do Sindicato, Edelson Figueiredo.
O presidente do Sindicato, José Ferreira, criticou os bancos pelo elevado número de bancários e bancárias adoecidos mentalmente e pelo descaso com que o tema da saúde do trabalhador é tratado nas mesas de negociação. Este será o tema da reunião entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban, nesta terça-feira (21), em São Paulo.
Depoimento emocionante
Durante o evento, a diretora da Federa-RJ, Ana Paula Jesus, mãe de uma criança neurodivergente, fez um emocionante relato sobre as dificuldades enfrentadas pelas bancárias mães atípicas. “Eu trabalhava perto de casa e o Bradesco me transferiu para Madureira. Isso acabou comigo. Só consegui voltar ao meu antigo local de trabalho graças ao apoio do Sindicato. Precisamos acolher essas mães que estão passando pelo mesmo problema”, afirmou.
Cuidar de quem cuida
Cler Orbato explicou que o processo para obtenção do diagnóstico de uma condição neuropsíquica é complexo, inclusive pela resistência inicial de muitas famílias em reconhecer a necessidade de avaliação e tratamento dos filhos.
Segundo a especialista, é o laudo emitido pelo neuropsicólogo, após avaliações e exames neurológicos, que confirma a condição de neurodivergência. Ela destacou que o Sistema Único de Saúde (SUS) já oferece esse tipo de atendimento, mas o acesso ainda é lento devido à alta demanda.
A psicóloga observou ainda que o aumento no número de diagnósticos reflete principalmente o avanço científico e a ampliação do conhecimento sobre os transtornos do neurodesenvolvimento, e não necessariamente um crescimento da incidência desses casos. Outro ponto destacado foi a necessidade de cuidar também de quem exerce a função de cuidador.
“Se você não tiver tempo para se cuidar, não terá condições de cuidar de quem precisa”, afirmou Cler, ressaltando que cuidadores costumam apresentar níveis elevados de cortisol, o hormônio do estresse, devido à sobrecarga emocional e física.
“Esse estresse gera sentimento de culpa e faz com que a pessoa passe a perceber muito mais os aspectos negativos da vida”, alertou.
A especialista acrescentou que um número significativo de pais de crianças neurodivergentes também apresenta algum tipo de neurodivergência.
“Quando cuidamos continuamente, os efeitos aparecem em forma de irritabilidade, dificuldade de concentração, esquecimentos, fadiga mental e pior capacidade de tomada de decisões”, explicou, ressaltando que esses impactos atingem a vida profissional, pessoal e afetiva.
Entre as formas de autocuidado, Cler recomendou reservar momentos para ouvir música, caminhar, descansar e até mesmo permitir-se momentos de ócio. “O autocuidado também ajuda a recarregar as energias”, aconselhou.
Ela criticou a falta de sensibilidade das empresas em relação ao tema. “As empresas precisam compreender que a casa também faz parte do expediente”, afirmou.
Ao encerrar a palestra, Cler Orbato reforçou a necessidade de transformar o debate em ações concretas.
“Cuidar de quem cuida não é o fim de uma palestra. É o começo de uma política permanente de acolhimento e de um debate que precisa continuar, concluiu.”