CASA GRANDE E SENZALA

Presidente do conselho do Bradesco ataca Previdência Social e defende reforma contínua

Luiz Carlos Trabuco afirma, em Nova Iorque, que é preciso rever o estado de bem-estar social brasileiro e revela o desejo do setor financeiro de avançar sobre os direitos previdenciários dos trabalhadores

DE QUE LADO ESTÁ? Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, defende ataques ao estado de bem-estar social e aos direitos previdenciários dos trabalhadores. Setores da extrema-direita já discutem uma nova reforma da Previdência, incluindo aumento da idade mínima para aposentadoria Foto: Vanessa Carvalho/Estadão

O presidente do conselho de administração do Bradesco e ex-presidente da instituição, Luiz Carlos Trabuco Cappi, defendeu, na última segunda-feira (11), durante evento promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, em Nova Iorque, uma revisão do estado de bem-estar social brasileiro, incluindo a redução de programas sociais e uma reforma permanente da Previdência Social.

Segundo o banqueiro, a redução do número de trabalhadores com carteira assinada faz com que “o pacto entre gerações já não sustente a Previdência Social no Brasil”. Trabuco afirmou ainda que o atual modelo previdenciário brasileiro “é do século XIX”.

“O que o senhor Trabuco declarou não é apenas uma opinião pessoal, mas a pressão que a Faria Lima, os banqueiros, vêm fazendo para, inicialmente, elevar ainda mais a idade mínima para aposentadoria e, posteriormente, enfraquecer a Previdência Pública. A intenção é entregar as aposentadorias dos trabalhadores aos bancos privados, como ocorreu no Chile, onde milhões de pessoas passaram a enfrentar enormes dificuldades para se aposentar”, criticou o diretor do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e representante da COE (Comissão de Organização dos Empregados) do Bradesco, Leuver Ludolff.

“O nível de perversidade da elite econômica brasileira é inacreditável. Trata-se de uma visão profundamente escravocrata”, acrescentou o dirigente sindical.

Reforma da Previdência em debate

O senador Rogério Marinho (PL) afirmou que, caso a extrema-direita volte ao governo federal, uma nova reforma da Previdência será realizada. Segundo o parlamentar, está em estudo a ampliação da idade mínima para aposentadoria para 70 anos. A última reforma previdenciária ocorreu justamente durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As mudanças estabeleceram idade mínima de 65 anos para homens e 62 anos para mulheres se aposentarem. Antes da reforma, era possível obter aposentadoria por tempo de contribuição, independentemente da idade mínima.

O apoio do setor financeiro à extrema-direita também foi lembrado pelo movimento sindical. Após a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, o então presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, afirmou que eles, os banqueiros, se sentiam “revigoradom” com o resultado eleitoral, após reunião com Bolsonaro, Paulo Guedes e demais integrantes da equipe econômica.

“Os brasileiros precisam estar atentos. Uma nova reforma previdenciária, para atender aos interesses de banqueiros e empresários, já está sendo discutida pelos setores da extrema-direita”, alertou Leuver.

Lucro bilionário e demissões

O Bradesco registrou lucro de R$ 6,811 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 16,1% em relação ao mesmo período de 2025 e crescimento de 4,5% no trimestre. No primeiro trimestre de 2026, o banco contava com 80.348 funcionários, sendo 68.822 bancários. Em doze meses, foram fechados 3.017 postos de trabalho, dos quais 3.131 entre bancários. Apenas no trimestre, houve fechamento de 1.747 vagas, sendo 1.728 de bancários. O banco também encerrou as atividades de 346 agências.

“A crueldade da elite econômica brasileira beira a relação escravocrata herdada do período colonial de Casa Grande e Senzala”, afirmou Sérgio Menezes, dirigente do Sindicato e funcionário do Bradesco.