28ª CONFERÊNCIA NACIONAL

Novas tecnologias e avanço das fintechs impactam negativamente no emprego bancário

A economista do Dieese, Rosângela Vieira, falou das profundas transformações no trabalho bancário causadas pelo avanço das plataformas digitais no sistema financeiro

A economista do Dieese, Rosângela Vieira, mostrou um estudo confirmando a redução do emprego tipicamente bancário e o crescimento no sistema financeiro de profissionais da área de TI causado pelas novas tecnologias no setor Fotos: Contraf-CUT

Na segunda palestra realizada neste sábado (20), pela 28ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada em São Paulo, a mestre em Economia Política pela PUC-SP e também técnica do Dieese, Rosangela Vieira, abordou as profundas transformações no mercado de trabalho bancário, impulsionadas pela digitalização e pela busca permanente de redução de custos.

“De 2024 a 2025, os cinco maiores bancos fecharam 1.345 agências, totalizando uma redução de 37% da rede física no período. Essa reestruturação não representa retração do setor, que lucrou R$124 bilhões em 2025, mas uma mudança estratégica voltada ao atendimento digital e ao público de maior renda”, explicou.

Segundo Rosangela, ao mesmo tempo em que postos tradicionais são eliminados, cresce rapidamente a demanda por profissionais de tecnologia.

“Enquanto as ocupações tradicionais perderam cerca de 24 mil vagas (-57%), foram criados aproximadamente 21 mil novos postos em Tecnologia da Informação, um crescimento de 175%”, destacou.

Mudança no perfil da categoria

A pesquisadora ressaltou ainda que essa transformação altera o perfil da categoria bancária, já que muitas das novas contratações ocorrem fora da estrutura sindical tradicional. Lembrou também que os bancos públicos respondiam por 42% do emprego bancário em 2015. Durante os governos Temer e Bolsonaro, essa participação caiu para 22%, representando perda média de 21,1 mil postos de trabalho por ano.

“Caso esse ritmo tivesse continuado no terceiro governo Lula — o que não ocorreu —, os bancos públicos teriam hoje cerca de 60,6 mil empregados a menos do que o total registrado em 2025, de 174,4 mil trabalhadores”, calculou.

Fortalecimento das fintechs

Rosangela também apresentou dados que evidenciam o fortalecimento das cooperativas de crédito e das fintechs no Sistema Financeiro Nacional.

“Entre 2013 e 2025, a participação das cooperativas na carteira de crédito passou de 2% para 7%, enquanto sua rede de atendimento cresceu de 11% para 29% do sistema financeiro. As fintechs tiveram avanços semelhantes. Apenas o Nubank ampliou sua base de clientes em 75 milhões entre 2021 e 2025 e multiplicou sua receita por 20, alcançando lucro superior ao de bancos tradicionais, como Santander e Caixa”, afirmou.

Mulheres mais prejudicadas

Outro dado preocupante foi o impacto das mudanças tecnológicas sobre o emprego feminino. Rosangela Vieira alertou que as mulheres estão sendo mais afetadas pelas demissões, principalmente porque ocupam a maioria dos cargos administrativos e de atendimento, justamente os mais atingidos pela reestruturação nos bancos.

“Nas funções tradicionais que vêm sendo eliminadas, as mulheres representam 62% da força de trabalho. Já nas novas vagas de tecnologia, sua participação é de apenas 24%, evidenciando um processo de exclusão tecnológica dentro do setor bancário”, afirmou.

Foi esta situação que levou o movimento sindical bancário a lutar e conquistar mais oportunidades para as mulheres na área de TI (Tecnologia da Informação), em negociação com os bancos.

Segundo a economista, a expansão da inteligência artificial generativa e de outras tecnologias acelera a substituição das atividades administrativas e de atendimento, funções que registraram queda de 57% entre 2015 e 2025.

Desafios para a categoria

Na avaliação de Gustavo Cavarzan, a redução estrutural dos postos de trabalho e da rede de atendimento deve continuar nos próximos anos, impulsionada pela consolidação das fintechs, das cooperativas de crédito e pela incorporação de novas tecnologias

Metas e adoecimento

Os técnicos do Dieese mostraram ainda que essas transformações ampliam os desafios relacionados às metas, à saúde mental dos trabalhadores e à necessidade permanente de qualificação profissional.

A 28ª Conferência Nacional dos Bancários prossegue até domingo (21), quando serão votadas as resoluções, moções e pauta de reivindicações para a Campanha Nacional 2026.