28ª CONFERÊNCIA NACIONAL

Juros altos endividam famílias brasileiras e dificultam a recuperação econômica, diz economista

Gustavo Cavarzan mostra que modelo rentista eleva lucros dos bancos, mas prejudica trabalhadores e o setor produtivo.

O economista do Dieese, Gustavo Carvazan, mostrou com dados, que os juros endividam as famílias brasileiras e correm o poder de compra dos salários Fotos: Contraf-CUT

A terceira mesa de debates da 28ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada neste sábado (20), teve início com a palestra do doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp e técnico do Dieese, Gustavo Cavarzan.

O economista apresentou dados mostrando que, enquanto o Sistema Financeiro Nacional (SFN) acumula lucros recordes, grande parte da população brasileira sofre com o elevado comprometimento da renda devido ao endividamento causado pelas altas taxas de juros no Brasil.

Crédito mais caro  

Cavarzan explicou que boa parte dos resultados do sistema financeiro ocorre em função do crédito caro concedido às famílias, que recorrem aos cartões para financiar despesas do dia a dia, em função do alto custo dos alimentos. Ele responsabiliza a política monetária do Banco Central, que manteve a taxa básica de juros (Selic) em níveis elevados nos últimos anos. O Brasil possui hoje a segunda mais alta taxa de juros do mundo, perdendo apenas para a Rússia, que está em guerra contra a OTAN na Ucrânia

“A Selic – taxa básica de juros – está hoje em um patamar sete vezes superior ao do início de 2021, provoca forte aumento dos juros bancários e desaceleração do crédito livre”, explica o técnico do Dieese.

O economista explicou que o crédito livre — modalidade em que juros e condições são negociados entre bancos e clientes — também foi impactado pelo crescimento do endividamento das famílias. “Esse quadro se agravou durante o governo Bolsonaro e permanece em níveis elevados. O mais preocupante é que esse endividamento não foi destinado à formação de patrimônio, como a compra da casa própria, mas ao consumo básico, concentrando-se justamente nas linhas de crédito mais caras do mercado”, observou.

Dívidas corroem renda

Cavarzan destacou que o cartão de crédito se tornou hoje o principal responsável pelo endividamento, alcançando 84,9% das famílias nessa condição.

“Fatores como a desregulamentação do Sistema Financeiro Nacional, com a expansão das fintechs oferecendo crédito de forma desproporcional, a digitalização dos hábitos de consumo, com cartões cadastrados em diversos aplicativos, além da legalização das bets e dos jogos on-line em 2018 e sua rápida expansão, ajudam a explicar por que, embora o rendimento médio real da população tenha crescido 12% em relação ao período pré-pandemia, após o pagamento das dívidas com o sistema financeiro esse ganho cai para apenas 3%”, ressaltou.

Retrocesso com Temer e Bolsonaro 

O técnico do Dieese observou ainda que a quantidade de cestas básicas que podem ser adquiridas com um salário mínimo em abril deste ano é praticamente a mesma registrada em abril de 2019. Além disso, somente em 2024 o Brasil recuperou o PIB per capita observado em 2014.

“A deterioração econômica provocada pelos governos Temer e Bolsonaro ainda está sendo revertida. Em outras palavras, apesar da melhora recente dos indicadores macroeconômicos, o país apenas voltou ao patamar de uma década atrás. Assim, embora o terceiro governo Lula apresente resultados positivos na economia, boa parte da população não percebe essa melhora porque parcela significativa da renda continua sendo drenada pelas elevadas taxas de juros”, afirmou.

Lucros dos bancos em alta 

Enquanto as famílias enfrentam dificuldades financeiras, o setor bancário mantém rentabilidade elevada. Entre 2020 e 2025, o lucro líquido do Sistema Financeiro Nacional cresceu 114%, com destaque para os bancos digitais, cujo lucro avançou 2.137%. As cooperativas registraram crescimento de 180%.

Os bancos privados e públicos também ampliaram seus resultados, com altas de 114% e 46%, respectivamente.

“Esse desempenho ocorre justamente em um contexto de forte endividamento da população, no qual parte significativa dos lucros é obtida por meio de operações de crédito que comprometem cada vez mais a renda das famílias”, concluiu Cavarzan.

Na terceira mesa de debates do segundo dia da 28ª Conferência Nacional dos Bancários, neste sábado (20), a plateia de delegadas e delegados representando a categoria, continuou prestigiando as palestras 
Fotos: Contraf-CUT