Diretora-técnica do Dieese e professora de economia da Unicamp criticam os argumentos do Copom, órgão do BC, para a redução de apenas 0,25 % da taxa Selic
Escrito por: Rosely Rocha
Enquanto o Banco Central sustenta a necessidade de cautela diante de incertezas globais, cresce entre estudiosos da economia do país a avaliação de que a política monetária atual pode estar mais contribuindo para os problemas do que oferecendo soluções.
A diretora-técnica do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Adriana Marcolino, questiona a coerência das justificativas apresentadas pelo Banco Central ao longo do tempo. Segundo ela, há uma mudança constante de argumentos para sustentar a manutenção de juros elevados.
“Agora é a guerra. Antes eram as contas públicas. Ou seja, sempre há uma justificativa supostamente técnica para manter os juros altos. A questão é: isso atende à economia real ou às expectativas do mercado?”, questiona.
Para Adriana, embora o impacto de conflitos internacionais sobre o preço do petróleo seja real, a resposta via política monetária é ineficaz e até contraproducente.
“O aumento da taxa de juros não vai reduzir o preço do combustível. O que ele faz é restringir a atividade econômica em outros setores, como investimento produtivo e consumo”, explica. “A gente está vendo famílias cada vez mais endividadas porque o crédito está caro. Ou seja, não resolve o problema da inflação e ainda cria outros”, afirma.
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Ela também aponta fatores estruturais internos como determinantes da pressão inflacionária, especialmente no setor de combustíveis, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) que vendeu abaixo do preço refinarias e a BR Distribuidora da Petrobras.
A diretora-técnica do Dieese também critica o impacto da privatização de refinarias. “Essas empresas não têm compromisso com a inflação. Mesmo com custo baixo, seguem o preço internacional. Então, estamos falando de um modelo em que se mantém juros altos para conter a demanda enquanto empresas privadas lucram com preços elevados. Não faz sentido do ponto de vista do desenvolvimento econômico e social”.
“A alta do diesel tem relação direta com a perda de capacidade da Petrobras de produzir e refinar internamente, resultado de políticas adotadas nos últimos anos. Ficamos mais dependentes do mercado externo”, diz. Nesse contexto, ela defende que a solução passa por ampliar a produção nacional. “A saída estratégica seria fortalecer a soberania energética, não manter juros altos. Essa é uma falsa solução”, ressalta Adriana.
Meta da inflação X juros altos
Na mesma linha, a professora de economia da Unicamp, Marilane Teixeira, avalia que a postura do Banco Central reflete um “excesso de prudência” que acaba travando a economia. “O Copom continua na retranca. Mesmo com indicadores que já permitiriam uma redução maior dos juros, opta por cortes mínimos, sempre ancorado em algum risco como o de agora, o conflito no Oriente Médio”, afirma.
Ela destaca que, pelas próprias regras do Banco Central, já haveria espaço para uma flexibilização mais significativa da política monetária. “Os dados mostram que a inflação acumulada já estava dentro da meta em vários meses recentes. Ou seja, havia um ambiente favorável para reduzir os juros. Ainda assim, optou-se por um corte muito conservador.”
Para Marilane Teixeira, a repetição de justificativas externas levanta dúvidas sobre os reais motivos da manutenção dos juros em patamares elevados. “Se não fosse a guerra, seria outro fator como a taxa de juros americana, o cenário internacional, qualquer coisa. Sempre há um argumento para conter a queda. Isso revela uma lógica que vai além da inflação”, critica.
Ela chama atenção para um ponto menos debatido: o próprio impacto dos juros altos sobre os preços. “Existe uma linha de estudos que mostra que juros elevados podem pressionar a inflação, e não reduzi-la. As empresas dependem de crédito para operar. Se o custo financeiro aumenta, isso pode ser repassado aos preços”, explica. “Ou seja, o juro pode funcionar como custo de produção”. Sobre a tese de que juros altos aumentam a inflação, Marilane se refere ao economista André Lara Resende que critica os juros altos praticados no Brasil.
“Só em 2025, o Brasil gastou cerca de um trilhão de reais com juros da dívida pública. Isso alimenta uma dinâmica de expectativas e o mercado financeiro passa a projetar aumento de impostos ou de preços administrados no futuro, o que também pode pressionar a inflação”, diz.
Marilane vai além ao afirmar que o atual modelo favorece o rentismo. “A manutenção de juros altos atrai capital financeiro externo, interessado em aproveitar uma das maiores taxas de retorno do mundo. Isso ajuda a manter reservas internacionais e certa estabilidade cambial, mas tem um custo enorme para a economia real, especialmente para o investimento produtivo”, acredita.
A professora de economia também relativiza o nível atual da inflação no país. “Estamos falando de uma inflação anual em torno de 4% a 4,5%, com taxas mensais abaixo de 1%. Isso não representa um risco significativo para a economia brasileira. Há um certo exagero na resposta monetária”, avalia.
Para as duas especialistas, o debate sobre juros no Brasil precisa ir além da lógica tradicional. “Essa ideia de que a única forma de controlar a inflação é com juros altos é uma construção teórica que não necessariamente se aplica à realidade brasileira. É uma invenção que precisa ser questionada”, afirma Marilane.
Adriana Marcolino concorda e reforça a necessidade de alternativas. “O Brasil precisa investir na sua capacidade produtiva, reduzir dependências externas e usar outros instrumentos de política econômica. Manter juros altos como resposta automática não é eficaz e penaliza principalmente a população”, conclui.