A primeira rodada de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), aconteceu nesta quinta-feira (2/7), e tratou do bloco de cláusulas sociais, entre elas a jornada de quatro dias de trabalho, com três de descanso (4×3), defesa do trabalho à distância e direito à desconexão, direitos das pessoas com deficiência (PcD) e segurança bancária digital.
Coordenaram a bancada sindical bancária na mesa de negociação (Contraf-CUT, federações e sindicatos), o ex-presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e vice-presidente da Contra-CUT, Vinícius de Assumpção e a presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Neiva Ribeiro. Também participaram da negociação, pelo Rio, a presidenta da Federa-RJ, Adriana Nalesso e o presidente do Sindicato do Rio, José Ferreira.
Durante a rodada, os bancos foram intransigentes e, mais uma vez, se recusaram a assinar um pré-acordo que garantisse os direitos constantes da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), no caso da negociação não ter chegado a um acordo até 31 de agosto. As cláusulas da CCT deixariam de valer já que a data-base para a negociação de uma nova convenção coletiva é 1º de setembro. A recusa força o Comando a resolver a campanha até o final de agosto.
Dia Nacional de Luta – Vinícius fez uma avaliação da negociação, adiantando que o Comando Nacional já marcou uma importante mobilização nacional para pressionar os bancos por avanços na mesa única. “Começamos hoje o processo negocial. Já tínhamos entregue a pauta de reivindicações e hoje discutimos temas importantes para a categoria, como a inclusão dos PcDs, a jornada trabalho, principalmente do pessoal que está em home–office e a questão ao direito à desconexão”, afirmou.
“Semana que vem tem outra rodada já marcada, para discutir proteção ao emprego, que é um tema fundamental. O que eu deixo de recado para todos os bancários é que precisamos agora fortalecer a mobilização. A Contraf-CUT e o Sindicato já estão chamando um Dia Nacional de Luta, no dia 6 de julho, para que a gente possa fazer avançar o processo negocial e fortalecer a nossa Campanha Nacional Unificada. Vamos juntos conquistar a nossa pauta”, disse.
Nova negociação no dia 7 – José Ferreira, presidente do Sindicato, também convocou a categoria para a atividade nacional do dia 6. “A próxima semana será marcada pelo Dia de Luta no dia 6, pela defesa do emprego na negociação do dia 7 e pelo ato público de lançamento da campanha no dia 9, onde vamos dialogar com os bancários e com os clientes e a sociedade denunciando o fechamento das agências e a piora no atendimento como consequência” frisou.
Ferreira ressaltou que os dados extraídos da RAIS de 2025 demonstram que os bancos não têm cumprido o mínimo de 5% de PcD e reabilitados entre os empregados. Acrescentou que a redução da jornada que possibilitará a diminuição do adoecimento e a melhoria de produtividade dos bancários é possível se o lucro não estiver acima de tudo.

PcDs – Com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), o Comando Nacional destacou que o setor bancário possuía 18,7 mil trabalhadores PCDs em 2025 – número que representa 4,5% da categoria bancária. Em 2012 esse percentual era de 2,4%. “Apesar desse avanço, em termos de percentual, o setor registrou um decréscimo de bancários e bancárias PCDs: entre 2020 e abril de 2026, os bancos admitiram 7.840 pessoas com deficiência e desligaram 8.361, resultando no saldo negativo de 521 postos de trabalho para trabalhadores com deficiência na categoria”, destacou Vinícius.
Diante desse quadro, o movimento sindical reivindica aumento de contratações de PCDs e que os mesmos tenham garantia de ascensão profissional. O Comando Nacional também reivindicou o abono de faltas em caso de necessidade dos trabalhadores PCDs e aos pais e mães de crianças PCDs, para tratamentos ou exames de seus filhos.
A Fenaban respondeu que analisará as demandas do Comando Nacional.
Escala 4×3 – O Comando ressaltou que o processo de automação e o uso de novas tecnologias no setor viabilizam a implementação da escala 4×3: quatro dias de trabalho e três dias de descanso. O movimento sindical frisou também que a redução da jornada teria o potencial de gerar mais de 429 mil empregos bancários – aumento de 103% do número de trabalhadores no setor.
“A redução da jornada resultaria em ganhos na qualidade de vida dos bancários, sem prejuízos à produtividade das empresas, como demonstram exemplos de outros países e de empresas aqui no Brasil, que já implementam a escala 4×3”, destacou a coordenadora do Comando Nacional, Neiva Ribeiro.
Após um ano do projeto-piloto com empresas brasileiras, a 4 Day Week registrou os seguinte resultados da implementação da escala 4×3:
– 84,6% das lideranças recomendam a iniciativa para outras empresas.
– 93,4% das pessoas relataram maior colaboração com suas equipes, indicando que o modelo incentiva trabalho em conjunto.
– As empresas também colheram benefícios operacionais, com 61,5% de melhoria na execução de projetos, 44,4% mais capacidade de cumprir prazos, e 83,3% das organizações relatando melhorias nos processos internos.
Para os trabalhadores, alguns dos impactos da redução da jornada foram:
– 88,7% responderam ter mais satisfação com seu trabalho.
– 86,2% dos participantes relataram ter mais energia para dedicar à família e amigos, enquanto 58,5% disseram conseguir equilibrar melhor a vida pessoal e profissional.
– 79,5% dos participantes relataram sentir-se mais alegres e de bom humor, enquanto 66,2% disseram sentir-se mais ativos e com vitalidade.
Sobre esta demanda, a Fenaban propôs um estudo conjunto com os sindicatos sobre os impactos e a viabilidade da implementação da escala 4×3 no setor bancário.
Teletrabalho e desconexão – O Comando Nacional defendeu a manutenção do teletrabalho, como uma conquista importante da categoria, obtida desde as negociações de 2020, ano da pandemia. “O teletrabalho promove a redução do tempo deslocamento, ganhos de produtividade e melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Por isso, a manutenção do home office é tão importante para a categoria”, reforçou Neiva Ribeiro.
A representação do movimento sindical também cobrou que os bancos garantam o direito à desconexão, para que os trabalhadores não recebam mensagens das empresas nos intervalos, momentos de repouso, feriados, férias, licenças legais ou convencionais.
Segurança bancária – Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que entre 2023 e parte de 2026, foram registradas 340.140 fraudes digitais bancárias no país. Entre 2023 e 2025, o total de ocorrências cresceu 60,8%, passando de 74.371 em 2023 para 119.611 em 2025.
Neiva Ribeiro observou que o enxugamento de vagas de trabalho e de agências estão expondo a população às fraudes digitais. “A reivindicação da categoria é para que os bancos equilibrem o atendimento físico com o digital, para isso é necessária a ampliação de postos de trabalho e agências. Porque o crescimento do atendimento digital, tão somente, demonstrou-se inviável para conter as fraudes, que tem crescido ano após ano”, destacou a dirigente. “É preciso, ainda, regulação, fiscalização e ferramentas de segurança que protejam a sociedade”, completou Neiva.
Vinícius Assumpção completou que o número de fraudes financeiras digitais pode ser ainda maior, porque alguns estados, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, deixaram de colocar em seus boletins de ocorrências se os golpes financeiros registrados ocorreram em ambiente físico ou digital.
Ultratividade – Neiva Ribeiro destacou que 65% dos bancários apontaram como prioridade a manutenção dos direitos já conquistados pela CCT. “Por isso, é muito importante garantir a ultratividade, que é o princípio pelo qual as cláusulas da CCT continuam valendo mesmo após o fim da sua vigência, garantindo a manutenção de salários e direitos sociais até que um novo acordo seja firmado”, explicou a dirigente.
“Temos dois meses à frente para negociar a renovação da CCT e, este documento, se assinado pelos bancos, garantiria um conjunto de clausulas, conquistado ao longo de anos de esforços da categoria, para que a gente se concentre, nesta negociação, às novas reivindicações, como igualdade salarial entre homens e mulheres, melhoria na inclusão de PCDs, ambiente de trabalho sem metas abusivas, entre outros pontos”, completou Neiva, que também é presidenta do Seeb-SP.
A Fenaban, entretanto, se negou a assinar um documento de ultratividade, repetindo o comportamento de anos anteriores.
*Redigida, também, com informações da matéria da jornalista Lilian Milena da Contraf-CUT.