AGORA É MOBILIZAÇÃO

Bancos desrespeitam a categoria, ameaçam retirar direitos e empurram negociação sobre saúde para o dia 30 de julho

Sem apresentar nenhuma proposta concreta para o drama do alto índice de adoecimento de bancárias e bancários, Fenaban diz que tema continuará a ser tratado somente no final deste mês

O Comando Nacional dos Bancários criticou o descaso e desrespeito dos bancos com a categoria na negociação sobre a saúde dos trabalhadores e convocou os bancários e bancárias para o Dia Nacional de Luta do dia 28 de julho Foto: Contraf-CUT

O adoecimento da categoria bancária para o atingimento de metas desumanas é uma das maiores preocupações dos bancários e bancárias nos locais de trabalho e a solução para este grave problema está entre as principais reivindicações da Campanha Nacional 2026.

No entanto, na mesa de negociação desta terça-feira (21), em São Paulo, os bancos demonstraram absoluta falta de respeito com os trabalhadores que produzem os lucros recordes do setor, e, após atrasar a reunião, não apresentaram nenhuma proposta sobre o item.

Mesa única é fundamental

A Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) empurrou a negociação com a barriga e decidiu continuar a reunião sobre saúde, no próximo dia 30 de julho, quando estarão na mesa também, as pautas referentes à remuneração. Além disso, os banqueiros, cuja atitude irritou os membros do Comando Nacional dos Bancários, ameaçaram retirar direitos de cláusulas sobre saúde e romper com a mesa única, separando bancos públicos e privados.

O Comando promete uma resposta à altura do descaso dos patrões, intensificando a mobilização da categoria. Está marcado para 28 de julho, um Dia Nacional de Luta e Mobilização.

A presidenta da Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), Juvandia Moreira, criticou a postura dos bancos.
“Hoje tivemos uma negociação muito ruim, que não andou, porque a Fenaban não quis negociar. Iniciou o encontro ameaçando a manutenção da mesa única, com a tentativa de separar os bancos públicos dos privados. Nós não aceitaremos em hipótese alguma”, destacou Juvandia, que é também coordenadora do Comando Nacional. “A mesa única protege tanto os trabalhadores de bancos públicos quanto os dos bancos privados, e é por isso que eles querem promover a divisão da categoria”, completou.

A dirigente lembrou que a mesa única foi fundamental para a proteção de direitos, diante de conjunturas adversas, com ataques aos direitos dos trabalhadores e políticas de arrocho com reajuste zero, como durante os governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL).
“No governo Lula conquistamos a mesa única, que foi importante para proteger os bancários nos governos Temer e Bolsonaro, quando as estatais foram atacadas e ocorreram reformas que impactaram todos os trabalhadores”, ponderou Juvandia.

A proposta de separação da mesa entre bancos públicos e privados foi feita pelo representante da Fenaban, Adauto Duarte, ideia que foi refutada, inclusive, pelos representantes dos bancos públicos que estavam na negociação.

Endividamento da categoria

A Fenaban também trouxe para o debate, o tema a respeito do endividamento da categoria, discutido na reunião anterior, em que os trabalhadores reivindicam um programa de juros mais baixos para os bancários.
“Para justificar a negativa a este pedido, a Fenaban apresentou dados que não convenceram ninguém. Nós sabemos que entre os cinco maiores bancos existem taxas diferenciadas e eles poderiam adotar as menores dessas taxas para todos na categoria”, apontou Juvandia Moreira.

A única proposta apresentada pela Fenaban para a redução do endividamento foi terminar logo a campanha nacional e adiantar o pagamento da PLR.

Saúde e condições de trabalho

Sobre a pauta da saúde, o movimento sindical destacou que, em 2024, a categoria bancária representou 25% do total de afastamentos acidentários por doença mental, segundo dados oficiais do INSS. Os transtornos mentais são, inclusive, responsáveis por mais da metade dos afastamentos na categoria.
Os representantes da categoria lembraram que a Consulta Nacional dos Bancários 2026, realizada com quase 55 mil trabalhadores, confirmou os dados do INSS e a preocupação dos bancários com relação à necessidade de melhores condições de saúde e de trabalho.
No levantamento, realizado entre abril e maio deste ano, 40% afirmaram terem utilizado medicamentos controlados (antidepressivos, ansiolíticos ou estimulantes) no último ano; 67% afirmaram preocupação constante com o trabalho; 59%, que os impactos são cansaço e fadiga constante; 47% apontaram desmotivação, vontade de não ir trabalhar; 42% sofrem com crises de ansiedade/pânico; 39%, que estão com dificuldades em dormir, mesmo aos finais de semana; e 24%, com medo de “estourar” e “perder a cabeça”.

“Para enfrentar esse cenário, o Comando Nacional dos Bancários quer discutir, entre outros pontos, a implementação da NR-1 (Norma Regulamentadora nº1), com o mapeando os riscos psicossociais e acesso as informações de saúde na categoria”, destacou Mauro Salles, secretário de Saúde da Contraf-CUT. .
“Existe o reconhecimento da academia e de órgãos oficiais, entre os quais OIT, OMS, Ministério do Trabalho e Emprego e Ministério Público do Trabalho, do nexo causal entre metas abusivas e adoecimento dos trabalhadores”, reforçou Mauro Salles. “Portanto, a responsabilidade pelo adoecimento não pode ser atribuída ao trabalhador, quando os fatores de risco decorrem da forma como o trabalho é organizado”, acrescentou.

Ameaças dos banqueiros

Após a apresentação dos dados pelo Comando, a Fenaban travou a mesa e ameaçou retirar todas as cláusulas de saúde já conquistadas na CCT. “Nós, do comando, reiteramos que a pauta da saúde é fundamental. Não vamos concluir a negociação sem discutir esse tema. E a mesa única é o lugar onde esse tema deve se tratado”, destacou Juvandia Moreira.

Após mais um pedido de intervalo, a Fenaban concordou em continuar a negociação de saúde na próxima mesa, agendada para o dia 30 de julho.

O presidente do Sindicato do Rio de Janeiro José Ferreira e de Petrópolis, Sávio Barcellos Eiras, representaram a base da Federa-RJ (Federação das Trabalhadoras e Trabalhadores no Ramo Financeiro do Estado do Rio de Janeiro) na negociação.

“A Fenaban para fugir do debate sobre a saúde do bancário e da bancária escolheu tumultuar a negociação e fazer ameaças. Defendemos a mesa única e exigimos que os bancários e o Comando Nacional sejam tratados com respeito. Aos bancários chamamos a se manifestarem em repúdio a essa manobra esdrúxula”, criticou José Ferreira.

 

Principais reivindicações dos bancários sobre saúde

– Fim das metas abusivas;
– Combate ao assédio moral, organizacional e algorítmico;
– Limites à vigilância digital e ao controle por algoritmos;
– Serviços médicos que acolham adequadamente os trabalhadores adoecidos;
– Garantia de remuneração integral durante o período de adoecimento;
– Prevenção dos riscos psicossociais, com implementação da NR-1 e da NR-17.

*Matéria com reprodução de informações do texto da jornalista Lilian Milena, no site da Contraf-CUT.