“Na mesa de negociação de hoje, a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) apontou a possibilidade de alguns avanços nas questões que envolvem igualdade de oportunidades. Também se comprometeu em trazer, numa próxima rodada, uma consultora para falar sobre cursos de preparação de mulheres para a carreira no banco. Dentre outras questões ficou de trazer para a próxima rodada uma resposta sobre a questão do endividamento de parcela da categoria”. A avaliação sobre a negociação desta quinta-feira (16/7) entre o Comando Nacional Bancário e a Fenaban, em São Paulo, foi feita pelo presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, José Ferreira, que é membro do Comando.
“Se não fortalecermos e ampliarmos as políticas de ações afirmativas, não vamos superar essas desigualdades (de gênero e raça)”, ressaltou a coordenadora do Comando Nacional, Juvandia Moreira. “A violência estrutural contra mulheres, negras e negros é baseada em várias etapas, começa com a ideia de que o papel dessas pessoas é subalterno, passando pela naturalização das desigualdades, das piadinhas, do silêncio diante de casos de machismo e racismo, até chegar à discriminação na contratação, no pagamento de salários e, por fim, à morte”, pontuou.
“Portanto, a luta desta mesa de negociações, por equidade de acesso, ascensão e remuneração para todos e todas no setor bancário é uma das várias frentes necessárias para o combate ao machismo e ao racismo estruturais”, afirmou a dirigente.
Combate ao racismo – O ex-presidente do Sindicato e diretor da Secretaria de Combate ao Racismo da Contraf-CUT, Alimir Aguiar, também falou sobre a negociação. “Desde a conquista da mesa de Igualdade, avançamos nos níveis de participação de negras e negros no setor, mas o percentual é ainda insuficiente”, destacou o secretário de Combate ao Racismo da Contraf-CUT, Almir Aguiar.
Lembrou que no 1º Censo da Diversidade, realizado em 2008, negros e negras compunham 19% do quadro de trabalhadores. O levantamento mais recente mostrou que agora o grupo responde por cerca de 33%.
Para mudar este cenário, a categoria reivindicou: que cada contratação de pessoas negras seja notificada pelos bancos à Contraf-CUT; protocolo nacional de combate ao racismo, para que os trabalhadores saibam como lidar com casos praticados por clientes; comissão de heteroidentificação, com a criação de comissões paritárias, capacitadas para validar a autodeclaração de candidatos negros e garantir a aplicação correta das políticas afirmativas.
Alguns avanços – Neste quesito, houve alguns avanços, com a Fenaban. Sobre a implementação do protocolo de combate ao racismo, a Fenaban propôs que as denúncias de racismo praticadas por clientes sejam encaminhadas aos canais, já existentes nos bancos, de combate ao assédio. Esses canais também passarão a atender casos de LGBTfobia.
Já sobre combate ao assédio sexual, outra reivindicação apresentada pelo Comando, os bancos concordaram em incluir na Convenção Coletiva a definição dos comportamentos que caracterizam assédio sexual ou condutas inadequadas (importunação). Essa lista será explicativa e ajudará na formação do quadro de funcionários.
Escala 4×3 e “Desenrola Bancário” – Apesar de o tema da redução da escala ter sido abordado em mesas anteriores, sobre essa questão a Fenaban trouxe como devolutiva que não há espaço nos bancos para avanços neste ano.
Por outro lado, propôs trazer uma especialista que assessora a implementação da 4×3 em empresas brasileiras para aprofundar a discussão na mesa de negociação com o Comando Nacional. Para o fortalecimento a presença das mulheres no setor bancário, a Fenaban propôs a contratação de cursos em finanças e encarreiramento.
O Comando Nacional apresentou dados do endividamento da categoria e reivindicou um “Desenrola Bancário”. Na Consulta Nacional que, neste ano, teve a participação de quase 55 mil respondentes, 71% da categoria afirmou que está com dívidas. Desse grupo, 53% disse que possui dívidas com cartão de crédito, 42% com crédito pessoal e 30% com cheque especial. E, o mais impactante: quase 30% disseram estar com dívidas em atraso.
“Nossa reivindicação é para que os trabalhadores bancários sejam isentos do pagamento de quaisquer tarifas bancárias e que os bancos reduzam as taxas de juros e criem uma espécie de Desenrola Bancários”, reforçou Juvandia Moreira. “Destacamos ainda, que têm bancos que cobram dos seus funcionários taxas muito mais reduzidas que outros”, disse Juvandia. Fenaban ficou de estudar a reivindicação e trazer uma resposta em uma próxima mesa de negociações.
O tamanho da discriminação nos bancos – Segundo dados organizados pelo Dieese, as mulheres bancárias têm remuneração 18,4% inferior à dos homens bancários. Mas se a trabalhadora for negra, a remuneração média é 34,2% inferior à remuneração média do bancário branco do sexo masculino.
Considerando o recorte racial, pessoas negras (homens e mulheres) têm no setor bancário remuneração média 18,2% inferior à remuneração média na categoria.
Os dados que refletem o abismo salarial por gênero e raça foram apresentados na manhã desta quinta-feira (16), em São Paulo (SP), pelo movimento sindical à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), durante a terceira rodada de negociações da Campanha Nacional Unificada da categoria.
A desigualdade é maior nos cargos de comando dos bancos: apesar de ocuparem 47,7% dos cargos de liderança, as mulheres têm remuneração média 26% inferior à remuneração dos homens que estão nas mesmas ocupações. Considerando o recorte racial, pessoas negras (homens e mulheres) ocupam apenas 25,2% dos cargos de liderança, sendo que as mulheres negras compõem somente 9,7% dessas posições.
O Comando Nacional reforçou ainda que, pelo ritmo registrado nos últimos anos, o setor levaria 40 anos para alcançar paridade salarial entre homens e mulheres. E, ainda, que as mulheres são as mais demitidas e as menos admitidas atualmente no setor bancário.