28ª CONFERÊNCIA NACIONAL

Economista analisa ascensão da China, disputa tecnológica global e transformações do capitalismo

José Kobori abordou ainda a desregulamentação dos sistemas financeiros e o avanço da especulação rentista em detrimento dos setores produtivos e suas consequências para a economia e a política no Brasil

A análise do cenário internacional e dos desafios para o desenvolvimento do Brasil. Este foi o tema da primeira mesa do segundo dia da 28ª Conferência Nacional das Bancárias e dos Bancários, realizada na manhã deste sábado (20), no Hotel Holiday Inn Parque Anhembi, em São Paulo.

O tema do painel foi “Conjuntura: debatendo os rumos do Brasil e da classe trabalhadora”.

O economista, professor, empresário e escritor, referência em Finanças, Fusões e Aquisições (M&A) e fundador da JK Global Partners, José Kobori, apresentou uma reflexão sobre as mudanças geopolíticas global e seus efeitos sobre a economia mundial e o desenvolvimento das nações.

Nova ordem e tensões geopolíticas

Ao examinar as mudanças em curso na economia global, José Kobori defendeu que política e economia caminham juntas e que as grandes transformações da ordem mundial sempre foram impulsionadas por disputas de poder e interesses econômicos. “Política é economia e economia é política. Não existe economia separada das grandes decisões políticas e geopolíticas”, afirmou o especialista.

Segundo o economista, a reorganização do mundo após a Segunda Guerra Mundial consolidou uma ordem liderada pelos Estados Unidos, fortalecida posteriormente pelo acordo de ‘Bretton Woods’. O acordo foi firmado na Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas em julho de 1944, estabelecendo novas regras para o sistema monetário e comercial global após a Segunda Guerra.

Nova etapa do capitalismo 

A partir das décadas de 1970 e 1980, porém, a revolução neoliberal promoveu a liberalização financeira e inaugurou uma nova etapa do capitalismo. “A revolução neoliberal iniciou esse período que conhecemos como capitalismo financeiro. O dinheiro passou a gerar dinheiro, e a economia real foi perdendo espaço para a especulação e para os ganhos financeiros”, explicou.

Protagonismo dos bancos 

Na avaliação de Kobori, a abertura dos mercados e a desregulamentação do sistema financeiro ampliaram o protagonismo de bancos e fundos de investimento nas economias ocidentais, enquanto grandes corporações passaram a privilegiar a valorização de suas ações e a remuneração dos investidores em prejuízo da produção e da inovação.

Para o economista, a própria estratégia adotada pelos EUA favoreceu esse processo. Segundo ele, durante a Guerra Fria, o país incentivou o desenvolvimento de economias asiáticas para conter a influência da União Soviética. “Quem destruiu a economia industrial norte-americana foram os próprios Estados Unidos. E foram eles que ajudaram a economia chinesa e outros países da Ásia a se desenvolverem, porque, naquele momento, o grande adversário era a União Soviética”, afirmou.

O novo caminho chinês 

Kobori destacou que o crescimento da China não ocorreu por acaso, mas foi resultado de amplo planejamento estratégico e de um intenso debate interno sobre os rumos do país. “Os chineses estudaram todos os economistas. Houve um grande debate na China sobre qual seria o melhor caminho para o desenvolvimento do país”, disse.

De acordo com ele, o país rejeitou a cartilha neoliberal e adotou uma estratégia gradual de desenvolvimento, priorizando inicialmente a agricultura, depois a industrialização, os investimentos em ciência e tecnologia e, somente após consolidar sua base produtiva, o fortalecimento da defesa nacional. “A China construiu primeiro sua capacidade produtiva e tecnológica. Sua expansão econômica não se dá pela imposição cultural ou religiosa, mas pelas relações comerciais”, observou.

Controle estatal como solução 

Kobori ressaltou que, diferentemente dos países que seguiram as recomendações do Consenso de Washington, a China preservou o controle estatal sobre setores estratégicos e utilizou o investimento público como principal motor do crescimento econômico. “A China não seguiu a cartilha neoliberal. Enquanto vários países se desindustrializaram, ela e a Coreia do Sul fizeram o caminho contrário e se industrializaram”, afirmou.

O palestrante criticou as limitações impostas ao gasto público e defendeu a atuação do Estado como indutor do desenvolvimento. “Se você proíbe o Estado de gastar dinheiro, sua economia não vai crescer nunca. Essa é uma cartilha que os Estados Unidos disseminaram pelo mundo para manter a hegemonia, mas a China não seguiu esse caminho”, disse.

Déficit fiscal necessário

Segundo Kobori, o país asiático utiliza há décadas o déficit fiscal como instrumento para expandir sua capacidade produtiva. “Faz quase 40 anos que a China gasta mais do que arrecada, porque entende que é isso que permite ao país crescer e ampliar sua capacidade produtiva”, ressaltou.

Mundo multipolar e guerra tecnológica 

Na avaliação do professor, as transformações em curso apontam para a transição da hegemonia unipolar dos Estados Unidos para uma ordem multipolar, na qual a China desponta como principal potência econômica do século XXI. “O mundo está mudando de eixo. A guerra hoje é tecnológica, envolvendo inteligência artificial, semicondutores e o domínio das plataformas digitais. Quem controlar essas tecnologias terá vantagem econômica e geopolítica”, afirmou.

Aumento das tensões geopolíticas 

Kobori alertou que processos de mudança de hegemonia costumam ser acompanhados por tensões e conflitos. “Nós estamos vivendo uma transição histórica. E toda transição de poder gera tensões. Existe, inclusive, um grande risco de surgirem novos conflitos, especialmente na Europa, porque as mudanças na ordem mundial raramente ocorrem de forma pacífica”, advertiu.

A desindustrialização do Brasil 

Ao abordar a realidade brasileira, o economista afirmou que o país desperdiçou a oportunidade de se consolidar como potência industrial e tecnológica. Segundo o professor, na década de 1980 o Brasil possuía um parque industrial mais robusto que o da China e da Coreia do Sul, mas acabou perdendo competitividade. “O Brasil era mais industrializado do que a China e a Coreia do Sul nos anos 1980. Depois da revolução neoliberal, nós nos desindustrializamos”, afirmou.

Desafios para o Brasil 

Entre os principais obstáculos ao desenvolvimento nacional, Kobori citou a predominância do capital financeiro sobre o setor produtivo, a excessiva dependência da exportação de commodities e a insuficiência de investimentos em ciência, tecnologia e educação. “Não existe país de primeiro mundo que tenha se desenvolvido apenas exportando soja e carne. O desenvolvimento exige indústria, ciência, tecnologia e planejamento de longo prazo”, acrescentou.

Dólar, Pix e soberania nacional 

José Kobori também analisou a hegemonia do dólar e afirmou que, embora a moeda norte-americana continue ocupando posição central na economia mundial, a transição para uma ordem multipolar tende a reduzir gradualmente sua predominância.

Segundo ele, a perda da liderança absoluta dos Estados Unidos não significa o desaparecimento do dólar, mas uma transformação lenta e complexa da arquitetura financeira internacional.

O economista destacou ainda o Pix como uma ferramenta estratégica para a soberania nacional e digital do Brasil. Na sua avaliação, o sistema de pagamentos desenvolvido pelo Banco Central deixou de ser apenas um mecanismo de transferência de recursos para se tornar uma infraestrutura essencial ao país. “O Pix é uma questão de soberania nacional. O Brasil passou a ter uma infraestrutura própria de pagamentos, reduzindo a dependência de empresas estrangeiras e mantendo o controle sobre dados e transações financeiras”, afirmou.

Kobori observou que, em uma economia na qual os dados representam poder estratégico, possuir uma infraestrutura nacional de pagamentos significa preservar informações sensíveis e reduzir a dependência de grandes corporações internacionais.

O economista acrescentou também que o êxito do sistema brasileiro despertou reações de empresas estrangeiras e poderá torná-lo alvo de pressões comerciais e geopolíticas internacionais.

“A disputa pelo controle dos meios de pagamento e dos dados é uma disputa por soberania. O Pix deixou de ser apenas uma ferramenta financeira para se tornar uma questão estratégica para o país”, destacou.

Resultado da Consulta Nacional

A 28ª Conferência Nacional das Bancárias e dos Bancários prossegue até domingo (21). Na sequência da programação deste sábado (20), a economista do Dieese, Vivian Machado, apresentou os resultados da Consulta Nacional dos Bancários 2026, que servem de base para a elaboração da pauta de reivindicações da categoria na Campanha Nacional deste ano. Em breve publicaremos no site o resultado da Consulta Nacional.

*Texto com informações reproduzidas da matéria do jornalista Rodrigo Zevzkovas, do site da Contraf-CUT.
O economista e investidor José Kobori é um dos maiores especialistas em economia e geopolítica internacional
Fotos: Contraf-CUT

 

O auditório do Hotel Holiday Inn Parque Anhembi, em São Paulo, permaneceu lotado neste segundo dia da 28ª Conferência Nacional dos Bancários

 

Bancária, delegada na Conferência Nacional, registra palestra do professor José Kabori