CAMPANHA NACIONAL 2026

36º CNFBB debate papel social do Banco do Brasil e sistema financeiro

Participantes defendem o fortalecimento dos bancos públicos, e o compromisso do sistema financeiro com o desenvolvimento do país e criticam a chamada 'autonomia' do BC

O 36º CNFBB teve como primeiro painel de debates, nesta quarta-feira (17), em São Paulo, a mesa, “Conjuntura e papel do BB como banco público”, coordenada pelo presidente da Fetec-Centro Norte, Rodrigo Brito, e que contou com a participação do economista e ex-técnico do Dieese Jorge Gouvêia como palestrante.

Mudanças no sistema financeiro 

Gouvêia fez uma ampla análise sobre as instituições responsáveis pela regulamentação do Sistema Financeiro Nacional (SFN), defendendo um novo modelo regulatório, com os bancos e as instituições financeiras contribuindo para o desenvolvimento econômico que favoreça toda a sociedade, e não apenas para garantir lucros para banqueiros e grandes investidores.

“Quando foi criado, o Conselho Monetário Nacional (CMN) contava com representantes de vários setores da sociedade. Mas isso foi até 1994. A Lei 9.069, que instituiu o Plano Real, redefiniu a composição do órgão, que passou a incluir somente o ministro da Fazenda, que exerce a presidência, o ministro do Planejamento e o presidente do Banco Central”, destacou o palestrante.

“Esse modelo burocrático que faz com que o CMN seja operado sem a participação ou controle social e com reduzido controle legislativo, permite que o sistema financeiro no Brasil permaneça ‘oligopolizado’, disfuncional e excludente, falhando em promover o desenvolvimento equilibrado do país e servir aos interesses da coletividade, conforme previsto na Constituição”, explicou.

Críticas à autonomia do BC 

O economista disse ainda, que o Banco Central acumula funções que podem gerar conflitos de interesse na regulação e fiscalização, na gestão cambial, inclusive no controle da inflação e das taxas de juros. “O Brasil foi um dos últimos grandes países a instituir um Banco Central que, assim como o CMN, é um instrumento que atua na regulamentação do sistema financeiro”, explicou. “Mas a autonomia concedida ao Banco Central do Brasil traz sérios riscos à gestão fiscal do país e permite a manutenção de um sistema financeiro ‘oligopolizado’ e disfuncional, que não atende plenamente aos interesses da coletividade. Como podemos, por exemplo, pensar na industrialização do Brasil com uma taxa básica de juros de 15% ao ano? Além de impedir o desempenho do setor produtivo, a manutenção da Selic elevada é um bônus para os rentistas”, criticou o pesquisador.

Entre o papel social e o mercado  

Gouvêia identificou que, como sociedade de economia mista, o Banco do Brasil sofre uma tensão entre sua função social como empresa estatal e a busca pela geração de valor para os acionistas.”O Banco do Brasil está cada vez mais voltado aos interesses dos acionistas e menos às necessidades da população”. Ele lembrou que, em 2025, o BB distribuiu entre 40% e 45% do lucro aos acionistas, percentual bem superior ao mínimo obrigatório de 25%. Paralelamente, houve redução da participação do crédito destinado às micro e pequenas empresas e à agricultura familiar (Pronaf).

“Em dez anos, entre junho de 2016 e março de 2026, a rede de agências foi reduzida de 5.428 para 3.942 unidades”, destacou.

Redução de empregos

O economista também ressaltou que, na mesma década, o Banco do Brasil eliminou 24.996 postos de trabalho, uma redução de 22,8% do quadro de funcionários.

“O número de clientes por funcionário aumentou 83,7%, enquanto o número de clientes por agência praticamente dobrou, com alta de 95,3%. Houve uma elitização da clientela, com foco em clientes de alta maturidade digital, transferindo para o autoatendimento remoto parte dos custos da prestação dos serviços”, observou.

Estado como controlador

Gouvêia lembrou que, durante a crise financeira internacional de 2008, o Banco do Brasil desempenhou com sucesso sua função pública ao ampliar sua participação no mercado para compensar a retração de outras instituições financeiras e expandir a oferta de crédito. Explicou que, de dezembro de 2007 a dezembro de 2010, a participação do BB na oferta de crédito no país passou de 5,2% para 8,9% do PIB. Em 2012, destacou, o banco também liderou a redução das taxas de juros por meio do programa Bom para Todos.

“Para reverter essa trajetória e fazer com que o Banco do Brasil volte a fortalecer seu papel social, é necessário que o Estado reassuma uma atuação efetiva como controlador, garantindo que o interesse público prevaleça. Também é preciso revisar as metas de rentabilidade para que o potencial de oferta de crédito não seja subutilizado em nome de retornos livres de risco. Por fim, é fundamental resgatar o mandato de instituição financeira pública para enfrentar os novos desafios econômicos e sociais”, concluiu.

Avaliação do Sindicato 

O diretor executivo de Bancos Públicos do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e representante da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB), Alexandre Batista, avaliou positivamente o primeiro dia do congresso. “Iniciamos nosso congresso com uma profunda reflexão sobre a função social do Banco do Brasil, o interesse coletivo que envolve nossa empresa e os rumos adotados pela gestão. Somente com um conhecimento aprofundado dessa realidade poderemos construir uma pauta sólida em defesa do banco, de seus funcionários e do povo brasileiro”, afirmou.

“Também debateremos as propostas encaminhadas por todas as federações do país e buscaremos construir uma pauta de reivindicações que fortaleça os funcionários, a Cassi e a Previ”, concluiu o dirigente sindical.

*Texto com informações do site da Contraf-CUT

 

Alexandre Batista, do Sindicato do Rio de Janeiro (E) fez uma avaliação positiva do primeiro dia do 36⁰ Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil              Fotos: Contraf-CUT