Quarta, 25 Outubro 2023 18:10

Bancos usam tecnologia para ter mais lucro sem se importar com as consequências sociais

Olyntho Contente

Imprensa SeebRio

Os bancos não estão preocupados com os trabalhadores ou questões sociais, mas apenas com a rentabilidade. A avaliação foi feita por Soledad Giudice. Ela é assessora técnica da Asociación de Bancarios del Uruguay (AEBU) e participou da mesa sobre “A Tecnologia e o Trabalho no Sistema Financeiro”, nesta quarta-feira (25/10), no Fórum Internacional sobre a Digitalização Financeira, realizado pela UNI Américas Finanças, no auditório da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), em São Paulo.

“É importante ressaltar que não existe neutralidade das empresas. A decisão de como utilizar a tecnologia é tomada tendo como preocupação a lucratividade. E, neste ponto, as organizações sindicais têm relevância”, disse a técnica da AEBU se referindo à luta em defesa dos trabalhadores e da melhoria das condições de trabalho.

Também assessor técnico da AEBU, Aníbal Peluff, participou da mesa. Explicou que a economia digital é composta pelas infraestruturas de telecomunicações, pelas indústrias TIC (abreviação para Tecnologia da Informação e Comunicação, que incluiu produção de software, hardware e serviços no setor) e pela rede de atividades econômicas e sociais facilitadas pela Internet, pela computação em nuvem e pelas redes móveis, sociais e de deteção remota. Para ele, apesar de existirem novas características, as relações de produção não foram alteradas. “Os objetivos continuam sendo a maximização dos lucros, com aumento da capacidade de produção e redução da mão de obra”, disse.

Papel dos sindicatos

Os técnicos da AEBU propõem que sindicatos aprofundem o debate sobre os impactos da introdução acelerada da tecnologia na sociedade, introduzindo conceitos de justiça e ética na incorporação tecnológica. Ressaltaram que a negociação coletiva é fundamental para moldar a incorporação tecnológica, o uso de algoritmos, a definição de sistemas e metas de avaliação de desempenho, assim como a abordagem dos impactos diretos nas condições de trabalho e programas de saúde.

Por fim, recomendam que as formas de organização sindical sejam repensadas, com uso das novas tecnologias para o fortalecimento da comunicação com os trabalhadores, mas também em termos de estrutura, ampliando a pluralidade e adaptando o movimento às transformações do mercado de trabalho no setor.

“As ferramentas tecnológicas têm sido fundamentais para o processo de digitalização do sistemafinanceiro, principalmente a inteligência artificial, que aliada à exploração dos chamados ‘big data’, permite a utilização de bases de dados de grande dimensão na estratégia comercial, que antes eram realizados, principalmente pelo atendimento nas agências”, disse Aníbal Peluff.

Falta de regulamentação

O processo acelerado da digitalização do sistema financeiro traz benefícios, mas também problemas para os trabalhadores e para a sociedade como um todo. Na abertura do fórum, a presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, destacou a tempestividade do debate, justamente no momento que as tecnologias impactam a sociedade e as relações de trabalho. “Não podemos negar os benefícios que a tecnologia traz para as pessoas. Aqui no Brasil, por exemplo, o PIX (sistema eletrônico utilizado para pagamentos e transferência de recursos) já é uma realidade na sociedade. Todo mundo o utiliza. O sistema é aceito até por vendedores ambulantes”, disse.

“Mas houve uma transferência de risco e de responsabilidades para as pessoas que ‘carregam o banco no celular’”, completou Juvandia ao ressaltar que os números mostram que houve uma redução do número de assaltos a bancos, mas um grande aumento dos sequestros relâmpagos e fraudes/golpes digitais. “E, para a categoria bancária, o maior problema é a redução dos postos de trabalho”, observou.

Precarização de direitos e desemprego

Na retomada dos trabalhos do Fórum Sindical Internacional sobre a Digitalização Financeira após o almoço, Marco Bonnefoy, da Confederação de Trabalhadores Bancários do Chile (CSTBA), ministrou a palestra “Bancarização e automatização, o papel do banco”.

De acordo com Bonnefoy, os bancos souberam aproveitar esse impulso tecnológico, assumindo diversos meios de negócios que não fazia antes, como oferta de serviços online e digitais. “Todo esse movimento foi puxado, sem dúvida, pelas fintechs. Instituições financeiras que nasceram com o uso intrínseco da tecnologia, criando um novo modelo de negócio”.

Para ele, o maior impacto dos avanços tecnológico nos bancos é sentido pelas pessoas. “Os trabalhadores são os principais afetados. A ameaça está sobre os funcionários e a realidade do emprego, a forma como são contratados”, disse. “Os bancos concentraram o desenvolvimento tecnológico no front end, mas em breve o farão no back end”, completou.

O sindicalista chileno aponta que a mudança do perfil de modelo de negócio dos bancos no seu país culminou no desemprego. “Os bancos não estão mais focados nas pessoas, mas em empreendimentos. Com isso, eles mandaram embora muita gente. Eles precisam de menos pessoas para atender esse modelo de negócios”.

Os trabalhadores que permanecem estão sobrecarregados. “Embora os clientes tenham optado pela prestação de serviços digitalmente, continuam a ter em conta o atendimento presencial prestado pelos bancos”.

O desafio do movimento sindical do Chile é negociar com os bancos a adequação dos trabalhadores empregados aos postos existentes. “Precisamos falar com os bancos para mudar a forma de emprego. Isso precisa ser feito com união. Estamos tentando, mas vai ser muito difícil, porque nosso modelo de trabalho é muito individualista”, lamentou.

*Com informações da Contraf-CUT.

 

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