Quarta, 18 Outubro 2023 15:52

Estudo mostra transformações no ramo financeiro nos últimos dez anos e novo perfil da categoria

Levantamento organizado pela Contraf-CUT em parceria com o Dieese permitirá ao movimento sindical definir novas estratégias de atuação
Estudo mostra transformações no ramo financeiro nos últimos dez anos e novo perfil da categoria Imagem: Contraf-CUT

Carlos Vasconcellos

Imprensa SeebRio

Com informações da Contraf-CUT

 

A Conttraf-CUT (Confederação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro) e o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) realizaram em parceria um levantamento relevante sobre as transformações do ramo financeiro na última década. O estudo, com o título O Perfil da Categoria Bancária e Demais Trabalhadores e Trabalhadoras Formais do Ramo Financeiro na Última Década – 2012-2022 examina o perfil da categoria bancária e demais trabalhadores do ramo financeiro por vários aspectos, como unidades da federação brasileira onde estão esses trabalhadores, natureza jurídica das empresas, jornada de trabalho, remuneração, escolaridade, faixa etária, sexo, cor/raça e segmento de pessoas com deficiência (PCD).

O principal objetivo do estudo é subsidiar as ações do movimento de trabalhadores a partir dos dados deste levantamento sobre o setor financeiro, que tem passado por profundas transformações no trabalho e impactado pelas novas tecnologias. A partir destas informações, os sindicatos estarão melhor embasados para organizar estratégias de luta em defesa dos direitos dos trabalhadores bancários e de todo o ramo financeiro”, explica o vice-presidente da Contraf-CUT Vinícius de Assumpção.

Redução de bancários

Um dado do estudo que preocupa o movimento sindical é a redução de bancários em relação aos demais trabalhadores do ramo em função da estratégia dos bancos de reduzir custos, contratando trabalhadores que não têm a cobertura dos direitos previstos na Convenção Coletiva de Trabalho, como a PLR, a jornada de oito horas diárias de segunda à sexta-feira e o repouso remunerado nos finais de semana. Uma das práticas usadas pelos bancos para precarizar o trabalho e reduzir custos com mão de obra é a terceirização, inclusive de atividades-fins, o que é abominado pelo movimento sindical. Um exemplo é o caso do Santander, que tem sido condenado pela Justiça Trabalhista por contratação fraudulenta de empregados.

Só para se der ideia da gravidade da extinção de bancários, em 2012 eles representavam 59% do total. Passados 10 anos, este percentual caiu para 44% de todo o ramo financeiro.

A análise da publicação ressalta que, “em geral, as demais categorias do ramo têm condições de trabalho relativamente inferiores às dos bancários e bancárias, em termos de remuneração, jornada de trabalho, tempo de permanência no emprego, direitos garantidos em leis, acordos e convenções coletivas de trabalho”.

Importância dos sindicatos

Com a diversificação do perfil da categoria através da contratação de trabalhadores não-bancários mesmo que exercendo as mesmas funções, o estudo mostra, sempre em valores atualizados para dezembro de 2021, que os bancos reduzem despesas com a folha de pagamento para lucrar ainda mais. A remuneração média de um bancário ou bancária que possuem a representação sindical da categoria e os direitos da CCT, passou de R$ 9.558 para R$ 10.060, já a dos demais trabalhadores e trabalhadoras do ramo foi de R$ 6.322 para R$ 6.284. Ou seja, além de estar em patamares inferiores, apresentou oscilação para baixo.

Os números mostram o que denunciamos há anos. Os bancos reduzem a contratação de bancários para reduzir custos e lucrar mais, mas também para tentar enfraquecer a organização de luta dos trabalhadores e as negociações coletivas, tornando o trabalhador mais vulnerável, o que acaba resultando em redução de direitos e achatamento da renda média. Isto confirma a importância de sindicatos fortes na vida do trabalhador”, alerta Vinícius.

O estudo mostra ainda uma “grande diversidade de condições de trabalho” entre as categorias não bancárias do ramo financeiro formal. Os trabalhadores e trabalhadoras em cooperativas de crédito, por exemplo, que cresceram significativamente no período, têm ganho ao redor de 50% da média bancária e permanência no emprego de 49 meses, também próxima da metade em relação aos bancários. Houve ainda um crescimento de categorias ligadas às áreas de seguro, previdência complementar, planos de saúde e cartões de crédito, além de outras atividades “pouco definidas do sistema financeiro nacional”, fato que favorece “o surgimento de novos modelos empresariais no ramo financeiro, como as Fintechs e as plataformas de serviços financeiros”.

Na introdução do estudo, a presidenta da Contraf-CUT Juvandia Moreira, destaca que o levantamento feito em parceria com o Dieese é importante para que “as entidades sindicais tenham capacidade de compreender o mundo em transformação, para que possam atuar de forma eficaz para regular as relações de trabalho, com base nos preceitos do trabalho decente em todas as suas dimensões”. A fragmentação do emprego no setor é hoje um dos maiores desafios dos sindicatos.

Por isso será fundamental a construção da representação de todo o ramo fiananceiro, uma luta histórica nossa de muitos anos”, completa Vinìcius.

Outras mudanças são apontados pelo Dieese, como a concentração bancária que foi acentuada, a organização do trabalho em rápida transformação e a tecnologia que avança de forma avassaladora no sistema financeiro.

Desafios para os sindicatos

"Este levantamento é importante, em primeiro lugar, para atualizar informações sobre a categoria e verificar o que mudou em relação a dez anos atrás, em termos de padrões de jornada de trabalho, remuneração, tempo no emprego, pirâmide ocupacional, faixa etária, escolaridade, gênero, raça e pessoas com deficiência, entre outros aspectos”, explica o economista Gustavo Machado Cavarzan, da subseção do Dieese na Contraf-CUT e um dos responsáveis pelo estudo

Gustavo acrescentou ainda que “compreender como cada indicador se comportou ao longo da última década é fundamental para direcionar mudanças na própria atuação do movimento sindical bancário”. O economista também entende que “um segundo eixo relevante do estudo é a comparação de todos estes indicadores, entre a categoria bancária e as demais categorias do ramo, buscando destacar o que unifica e o que difere cada um desses segmentos, com o objetivo de também direcionar a ação sindical mais efetiva no caminho de construção da organização mais ampla do ramo financeiro como um todo”.

Para Vivian Machado, também economista da subseção do Dieese na Contraf-CUT e uma das responsáveis pelo estudo, “um destaque revelado pelo trabalho seria a perda de participação percentual e absoluta de bancárias e bancários em relação às demais categorias dentro do ramo financeiro, o que reforça a necessidade de se pensar formas de acessar os trabalhadores desses segmentos de trabalhadores não bancários, especialmente com um olhar voltado para as diferenças de remuneração e jornada, por exemplo”. Por conta dessas disparidades entre os diversos trabalhadores do ramo, Vivian ressalta “que futuras negociações deverão levar em conta as especificidades de cada segmento”.

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