Terça, 14 Março 2023 21:25
IGUALDADE DE OPORTUNIDADES

Salário de mulheres é 22% menor que dos homens nos bancos

Situação no mercado de trabalho bancário é ainda pior que demais setores e sindicatos cobram igualdade de salários e condições de ascensão profissional

Carlos Vasconcellos

Imprensa SeebRio

O Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) realizaram nesta terça-feira (14), a mesa permanente de negociação sobre Igualdade de Oportunidades. A desigualdade na média salarial entre homens e mulheres no setor bancário é ainda pior do que na média que reúne todos os setores da economia: 22% no sistema financeiro contra 21% na média geral.

O mercado de trabalho brasileiro discrimina mulheres e, quanto maior escolaridade, maior a diferença salarial. No caso de trabalhadores com ensino médio completo, por exemplo, as mulheres recebem em média 80,6% do salário dos homens. Entre os trabalhadores com doutorado, elas recebem 78,5% do salário dos colegas.

“Mesmo exercendo as mesmas funções, as bancárias ganham menos que os homens e  têm ainda maior dificuldade para ascender profissionalmente e chegarem aos cargos de maiores salários. Por isso é necessário que os bancos criem um programa de valorização das mulheres e de igualdade de oportunidades”, disse a presidenta da Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), Juvandia Moreira.

Nova Lei contra desigualdade

Juvandia destacou a importância da nova lei assinada pelo presidente Lula e o pacote de medidas para combater as distorções salariais entre os gêneros.

“Foi um avanço a regulamentação das convenções 100 e 111 da OIT [Organização Internacional do Trabalho] pelo governo federal que garante salários iguais entre gêneros para as mesmas funções”, destacou Juvandia.

O Projeto de Lei prevê que empresas que pagam salários diferenciados a uma mulher que tem o mesmo tempo de casa, a mesma função e com escolaridade similar a um funcionário homem serão multadas em dez vezes o valor do maior salário pago na mesma firma. O texto seguirá para análise do Congresso Nacional.

Discriminadas na contratação

O movimento sindical apresentou dados importantes mostrando que, a discriminação começa já na hora da contratação e também nas demissões. Números do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) sobre a eliminação de postos de trabalho e contratação de novos funcionários, revelam que nas áreas de TI (Tecnologia da Informação) desde a pandemia, vem reduzindo o número de  mulheres contratadas. De 2012 e 2021, a proporção de mulheres na área caiu de 31,9% para 24,9% no mesmo período.

“Mostramos com dados do Dieese que tem havido uma redução do emprego das bancárias na categoria, em especial no setor de TI e por isso pedimos à Fenaban que os bancos reavaliem seus critérios de contratação, dando mais oportunidades para as mulheres. Em gestão estratégica, como gerentes gerais de agências, superintendentes, regionais e diretores a participação feminina é muito pequena. Chamamos a atenção deles também a respeito da reduzida presença de mulheres na própria representação dos bancos na mesa de negociação", disse o presidente do Sindicato do Rio, José Ferreira, que participou da reunião, mostrando que é muito baixa a presença delas nos cargos do topo da carreira.  

Em 2022, houve favorecimento do sexo masculino, com abertura de 3.933 vagas para eles e a eliminação de 1.106 postos de trabalho entre as mulheres. As admissões de mulheres foram 19,1% menores que a dos homens e os desligamentos 5,4% superiores entre as mulheres, resultando assim no saldo negativo. 

Violência contra bancárias 

Os sindicalistas abordaram também a questão da violência contra as bancárias, incluindo sobre os casos de assédio sexual e moral. "Falamos do programa da importância do 'Basta' e a Fenaban ficou de fazer, no final deste mês, um debate e o lançamento deste programa e sugerimos que seja convidado para este evento, que precisa envolver a sociedade, além da presença do Comando Nacional da Categoria, o ministro de Direitos Humanos, das Mulheres, ou seja, uma representação do governo federal", acrescentou Ferreira. 

Nos últimos seis anos, esta desigualdade salarial no sistema financeiro apresentou crescimento exponencial. Em 2021, as bancárias recebiam 78,5% do salário dos homens enquanto que, em 2010, esse percentual era de 76,9%. Nos últimos vinte anos, apenas nos anos de 2021 e 2014, durante o governo Dilma Rousseff, essa diferença teve alguma redução.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), são as mulheres as maiores vítimas do desemprego: a taxa de desocupação é de 11% entre elas e bem mais baixa entre homens: 6,9%.

Os bancos prometeram que vão aprimorar os canais de acolhimento às vítimas de violência na família ou no ambiente de trabalho. 

Assédio sexual no trabalho

Os números de assédio sexual contra mulheres nos locais de trabalho são estarrecedores e tiveram um “boom” em 2022: foram 77.547 processos na Justiça do Trabalho que tratam deste tipo de violência, fora os casos em que elas ficam com medo de denunciar. Em 2021 foram 4.690 casos, ou seja, um aumento de 94,3%  no número de casos denunciados à Justiça. Os dados apresentados pelos sindicalistas na reunião com os bancos, são do Tribunal Superior do Trabalho (TST).

Endividamento

O endividamento e inadimplência no país, fruto dos maiores juros praticados no mundo, também são maiores entre as mulheres do que em relação aos homens. Estudo do Dieese mostra que, em dezembro do ano passado, 78,8% delas deviam ao cartão de crédito, ou carnês de lojas e em fevereiro deste ano este número saltou para 79,5%. Já 77,5% dos homens tinham dívidas, caindo para 77,2% em 2023. 

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