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Diagramação: Marco Scalzo
Diretora de Imprensa: Vera Luiza Xavier
Carlos Vasconcellos
Imprensa SeebRio
Houve um tempo, desde o primeiro desfile oficial das escolas de samba do Rio de Janeiro, em 1932, que escolas de samba tradicionais e precursoras tinham a hegemonia nos títulos conquistados pelas agremiações: Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro dominaram por décadas, o ranking das campeãs.
Era um tempo em que compositores, intérpretes de samba-enredo e passistas tinham mais valor do que carnavalescos e diretores de harmonia e de carnaval.
O poder da contravenção
A partir dos anos de 1970, quando os contraventores do jogo do bicho começam a se articular com maior presença no comando da organização dos desfiles, escolas como Beija-Flor (Anísio Abraão David), Mocidade Independente de Padre Miguel (Castor de Andrade), Imperatriz Leopoldinense (Luisinho Drummond) e Vila Isabel (Capitão Guimarães) começam a aparecer entre as mais destacadas na disputa dos títulos, em parte também, pelo luxo das agremiações proporcionado pelo dinheiro da contravenção em detrimento das dificuldades financeiras para algumas escolas tradicionais realizarem o Carnaval na avenida. Não se trata de questionamento do merecimento ou não de títulos.
O gigantismo das escolas
Ninguém pode negar a revolução nos desfiles feita pelo carnavalesco João Trinta, aluno de Fernando Pamplona (Salgueiro) e Fernando Pinto (Mocidade de Padre Miguel), conquistando cinco títulos de 1976 a 1983 com muito luxo e polêmicas. Na grandiosidade dos desfiles o modelo tradicional de Julinho Mattos, carnavalesco nascido na própria comunidade da Mangueira, já não sensibilizava mais os jurados ante o espetáculo criado por nomes que passaram pelo mundo acadêmico das artes
A criação da Liesa
A partir de 1984, quando os bicheiros tomam a frente da criação da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) é consolidado a hegemonia de suas escolas no ranking dos títulos, embora nos anos de 1970, em plena ditadura militar, a contravenção já mostrava sua força na maior festa do Carnaval no mundo, especialmente com títulos da Beija-Flor.
Nestes 41 anos, escolas dominadas pela contravenção ganharam 31 títulos contra apenas 10 de escolas sem patronos da contravenção.
O exemplo maior desta mudança no padrão dos desfiles é o Império Serrano, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, de sambistas do quilate de Mano Décio da Viola e Dona Ivone Lara, que nos últimos anos, sem patrono e com poucos recursos, mal consegue se manter no Grupo Especial.
Não que a presença da contravenção nas escolas de samba do Rio de Janeiro seja algo novo. A Portela já tinha nos primórdios do carnaval, o bicheiro Natalino José do Nascimento, o Natal, como patrono. A escola foi fundada na casa de seu pai.
No entanto, os contraventores ainda não dirigiam a organização dos desfiles e a escolha de jurados, que cabia ao poder público e a partir dos anos 70, a Riotur, a empresa pública de turismo do Rio de Janeiro. E fica a pergunta: até que ponto Natal influenciou a ainda líder em títulos do carnaval carioca (22 títulos) seguida da Mangueira (20), liderança ameaçada nos últimos anos pela Beija-Flor (15)?
Num tempo em que o que contava mesmo era samba no pé, composições magistrais e empolgação do povo, historiadores e especialistas dão crédito aos seguidos títulos da azul e branco de Osvaldo Cruz, aos seus baluartes eternos, como Paulo da Portela, Aniceto, Monarco, Candeia, Zé Ketti, Noca da Portela e, mais modernamente, Paulinho da Viola, entre outros.
Do samba no pé ao luxo
Nos anos 30 até os anos 60, o que mais contava mesmo era samba no pé, evolução da escola, enredo e empolgação da plateia do que a riqueza de alegorias gigantescas dos tempos modernos, inaugurados pelo Salgueiro e depois pela Beija-Flor, quando os carnavalescos passaram a ter um papel mais importante do que os dos sambistas.
Não se discute o valor do título da Beija-Flor deste ano em que o puxador Neguinho da Beija-Flor se despede como intérprete da escola de Nilópolis que, indiscutivelmente valoriza a participação de sua comunidade nos desfiles, como poucas nos dias atuais. Mas em anos anteriores títulos polêmicos deixavam claro que a presença de contraventores nas escolas pesavam não somente no luxo de muito dinheiro investido em suas agremiações, mas também em controversas decisões dos jurados, que passam por sorteio, mas são indicados a dedo pela Liesa, que aliás, fica todos os anos com o lucro do extraordinário espetáculo e o poder público, a Prefeitura, com o prejuízo dos investimentos necessários.
O desfile das escolas de samba continuam a chamar a atenção de turistas do mundo inteiro. É um espetáculo único que reafirma a criatividade do povo brasileiro e a singularidade do processo civilizatório de uma nação mestiça e de uma riqueza cultural extraordinária, revelando, como na maioria dos enredos de 2025, a história necessariamente recontada pela população negra.
Mas não há como negar que muita coisa mudou desde o primeiro título oficial conquistado pela Estação Primeira de Mangueira, em 1932, até os tempos modernos. E a força da presença de patronos contraventores em boa parte das escolas e principalmente na organização dos desfiles tem muito a ver com essas transformações, seja para o bem ou para o mal do carnaval carioca.