Terça, 21 Janeiro 2025 18:19

Categoria bancária aprova propostas para a 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente

Os trópicos podem tornar-se inabitáveis para o ser humano se não conseguirmos limitar o aquecimento global. Foto: Agência Brasil. Os trópicos podem tornar-se inabitáveis para o ser humano se não conseguirmos limitar o aquecimento global. Foto: Agência Brasil.

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Imprensa SeebRio

Bancários de todo o país participaram nesta segunda-feira (20) da Conferência Livre do Meio Ambiente. O evento foi organizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), feito de forma virtual, e é uma das etapas da 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, a ser realizada em maio, em Brasília, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.

A conferência contou com palestras das economistas do Dieese, Renata Belzunces e Vivian Machado. Ambas analisaram a crise ambiental do planeta, que ameaça a humanidade e as demais espécies, no contexto político e social do momento. Lembraram das ações cuja implementação foi tentada ao longo dos últimos anos, desde que os cientistas detectaram os fenômenos ambientais que se acirraram a partir do aumento da emissão de gases poluentes, que interferem no clima e colocam em risco a vida no planeta.

A diretora da Secretaria do Meio Ambiente do Sindicato dos Bancários do Rio, Cida Cruz, disse que a conferência foi importante para os bancários e seus sindicatos poderem debater as questões ligadas ao meio ambiente e levar propostas para a 5ª Conferência Nacional. “Nós trabalhadores estamos muito preocupados com a mobilização para que a gente possa cobrar dos governos e das empresas uma transição energética justa. O desafio é chamar a atenção de todos os trabalhadores para o tema e poder avançar para garantir direitos sociais, a uma cidade organizada, inclusiva, com saneamento para todos, com emprego, saúde e educação de qualidade, uma vida com dignidade e que respeite o meio ambiente”, explicou.

Reduzir o desequilíbrio – Renata Belzunces explicou que não existe mais possibilidade de reverter o processo de aumento de temperaturas. "Por mais que todos aqui não sejam especialistas em clima, boa parte já ouviu falar do Acordo Climático de Paris [de dezembro de 2015], no qual foram realizados compromissos. Nessa carta, os países membros se comprometeram com metas que deveriam fazer com que chegássemos, em 2030, com redução de 1,5 graus Celsius em relação à temperatura do período pré-industrial [de 1850 a 1900]. Alcançar isso agora é impossível. Nós passamos essa marca em aumento de temperatura média. Com isso, agora, cada ano que virá será o ano mais quente da história e o mais frio das nossas vidas", lamentou.

A pesquisadora observou que o cenário obriga a humanidade a se adaptar e mitigar, ou seja, desenvolver estratégias para amenizar a escalada de fenômenos ambientais em decorrência da crise climática. "Ainda que deixássemos de emitir totalmente gases de efeito estufa, o que já foi emitido continuará por longos períodos na atmosfera. Isso porque o principal gás que a humanidade emite, por exemplo, na indústria, em queimadas ou pelo uso combustíveis fósseis, o dióxido de carbono (CO2), fica décadas na atmosfera. O que tem sido discutido é que a temperatura continuará subindo, pelo menos, nos próximos 50 anos", explicou.

O secretário-geral da Contraf-CUT, Gustavo Tabatinga, pontuou que, ainda que o debate ambiental seja uma bandeira levantada há anos pelo movimento sindical mundial, a sociedade, como um todo, está entrando atrasada no debate, da maneira como deveria ter sido tratado para evitar o quadro atual. "Se, em outros momentos históricos, a nossa luta, como trabalhadores, era contra o sistema financeiro e questões sociais, como acabar com as guerras e lutar pela paz, agora, temos mais uma luta que é cuidar do planeta para sobreviver", completou.

Conscientizar é o grande desafio – A colega de Renata no Dieese, Vivian Machado, ressaltou que a conscientização ainda é um dos grandes desafios na questão ambiental. Ela trouxe ao encontro o termo "síndrome da mudança da linha de base", criado por ecologistas para denominar um truque mental que tem feito com que as pessoas se acostumem com as condições ambientais, levando a uma erosão gradativa dos padrões ligados ao tema.

"Ou seja, por mais que estejam acontecendo alterações significativas no clima, até mesmo pessoas que não são negacionistas têm sofrido com esse fenômeno, não julgando com tanta urgência a crise que estamos enfrentando. E é nesse comportamento coletivo que políticos populistas, como Donald Trump, acabam surfando", completou a economista sobre o recém-empossado presidente dos Estados Unidos que anunciou, no seu primeiro dia de mandato, a retirada da participação estadunidense do Acordo de Paris. Trump já havia retirado os Estados Unidos do pacto climático internacional para combate às emissões de carbono, no seu primeiro mandato, mas o seu sucessor, Joe Biden havia recolocado o país no acordo.

Expectativas quanto à COP30 – Outro assunto muito discutido na Conferência Livre de Meio Ambiente da Contraf-CUT são as expectativas em torno da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, que será realizada na cidade de Belém, no Pará.

Uma conquista importante foi conseguida pela categoria: três novas cláusulas na última renovação da Convenção Coletiva de Trabalho, onde os bancos se comprometeram a apoiar iniciativas de cuidar dos empregos diretamente atingidos por situações de calamidade, disponibilizar informações e cuidados sobre os atingidos por calamidades e a automática instalação de um Comitê de Crise, com participação de representantes das empresas e trabalhadores, em situações de calamidade pública, como ocorreu nas enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024.

Esse exemplo é importante para todas as outras categorias de trabalhadores, porque mostra a importância do papel de entidades sindicais fortes e o que significa ter trabalho decente de não ter trabalho decente. A economista acrescentou que há uma grande expectativa em relação à COP 30.

“Essa Conferência, em Belém, se dará sobre o fracasso do Acordo de Paris e de todas as COPs anteriores, mas em uma janela de oportunidades para debater o assunto, em que mentes e corações estão abertos para a questão ambiental”, salientou.

Propostas da categoria à 5ª Conferência – No final das exposições os participantes da Conferência Livre do Meio Ambiente da Contraf-CUT aprovaram as propostas da categoria para contribuir com a 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente. Além disso, elegeram Elaine Cutis como a delegada que representará o grupo na apresentação das propostas.

As instituições dos trabalhadores do Ramo Financeiro, cientes das urgências climáticas e sociais, sem prejuízo das imposições definidas pela legislação federal, estadual e municipal, firmam compromisso com:

Mitigação: redução da emissão de gases de efeito estufa

  1. O desmatamento zero e os Acordos Climáticos: estabelecimento de planos para se alinhar aos objetivos do Acordo de Paris e do Marco Global da Biodiversidade em sua Política de Responsabilidade Socioambiental e Climática (PRSAC), como critério nas concessões de crédito e investimento, observando, especialmente, o cumprimento dos requisitos de licenciamento ambiental, com a apresentação das devidas licenças ambientais.
  2. A responsabilidade ambiental na concessão de créditos: cancelamento e a suspensão imediata na concessão de crédito e investimentos para imóveis rurais e empresas com irregularidades socioambientais e a não concessão de créditos e promoção de investimentos para empresas e atividades prejudiciais à biodiversidade e ao clima.

Adaptação e preparação para desastres –

  1. Capacitação e Pesquisas: investimentos na qualificação permanente de trabalhador@s e da população em geral, que assegure o pleno atendimento aos requisitos socioambientais demandados para a prestação dos serviços, por meio de promoção de cursos, capacitações e contratação de pessoal; e financiamento de projetos sustentáveis e em pesquisas para identificar áreas mais vulneráveis.
  2. A Infraestrutura e sistemas de alerta: Contribuir com o financiamento de obras para evitar ou reduzir inundações; na construção barreiras para proteger a população contra o aumento do nível do mar; na ampliação de áreas verdes nas regiões de atuação das entidades do ramo financeiro; contribuir e participar com os recursos necessários no desenvolvimento de sistemas de alerta precoce de desastres naturais.

Justiça climática

  1. Criação de Normas Regulamentadoras, com protocolos específicos de proteção à saúde de trabalhador@s, nos seus diversos segmentos, em dias concentração excessiva de poluição atmosférica, calor excessivo, chuvas intensas e demais situações ambientais extremas, e definição de uma política nacional para tratar dos vencimentos e jornada dos trabalhadores afetados diretamente em seus locais de moradia e/ou trabalho por eventos ambientais agudos. Estimular a negociação coletiva direta para os mesmos fins.
  2. Proteção dos direitos humanos diante de medidas de transição energética verde: Implementar parcerias junto ao setor público para atuar em projetos que estimulem o desenvolvimento de mecanismos e tecnologias de produção de energias renováveis; ampliação de meios de transporte eletrificados e tecnologias de agricultura de baixo carbono, com políticas públicas atentas à lógica da distribuição dos ônus e bônus, com atenção maior às comunidades mais vulneráveis.

Transformação ecológica

  1. Articulação com o poder público para formulação de políticas e desenvolvimento de produtos financeiros voltados aos investimentos para a transição ecológica justa, com indução de cadeias produtivas de baixo impacto ambiental; incentivando a geração de emprego e renda; redução de desigualdades; requalificação profissional para trabalhador@s de setores com maior impacto ambiental ou na linha de frente das mudanças estruturais; e seguridade social para trabalhador@s de setores não contemplados;
  2. Criação de Programas de Incentivo ao desenvolvimento da Economia Circular: financiamentos a taxas mais acessíveis de projetos e cursos de capacitação que atendam, especialmente, à agricultura familiar, população indígena e quilombolas.

Governança e educação ambiental

  1. Educação Ambiental: qualificação permanente de trabalhador@s que assegure a compreensão e o pleno atendimento aos requisitos socioambientais demandados na prestação dos serviços, por meio da promoção de cursos e capacitações, num processo de transição justa, dialogando com os sindicatos sobre as inovações e transformações dos produtos financeiros motivados por demandas ambientais que impactem no emprego e na execução dos trabalhos;
  2. Negociação Coletiva Permanente: construção em negociação coletiva bipartite de uma cláusula sobre as Mudanças Climáticas e Calamidades, de modo a tratar de medidas preventivas e cuidados pós desastres climáticos, com o estabelecimento de uma Mesa de Negociação Nacional permanente sobre os temas relacionados ao meio ambiente.

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