Quarta, 12 Junho 2019 13:54

Há 102 anos, mulheres operárias revolucionaram na 1ª greve geral do Brasil

Escrito por Gabriel de Oliveira

Enquanto ocorria a Primeira Guerra Mundial, aproximadamente 400 trabalhadores da indústria têxtil amplamente encorpados por mulheres, da fábrica de tecelagem Mariangela, em Brás/SP, se organizaram em junho de 1917 ao lado de camponeses e trabalhadores rurais para aderirem ao movimento operário junto de Sindicatos e Federações, para reivindicar direitos trabalhistas, que na época não eram protegidos por lei, além de melhorias nas condições de trabalho, fim da exploração infantil e redução na jornada diária, resultando na maior greve geral do Brasil, durando 30 dias seguidos.

A crise começou dois anos antes, em 1915, com o aceleramento da exportação de alimentos para os países do Reino Unido, França e Rússia, chamados na época de “Tríplice Entente”. Por causa dessa corrente, a demanda de produtos alimentícios no Brasil despencou enquanto seus preços foram elevados. Apesar do salário ter aumentado em 71% até 1923, o custo de vida subiu em 189% no mesmo período, motivo esse, que colocaria crianças para a execução do trabalho forçado e sua exploração.

Uma grande emigração de italianos e espanhóis para o Brasil no início do século XX buscando melhores condições de vida, assustou a elite da sociedade que se sentia ameaçada com o povo estrangeiro. Eles se espalhariam pelo país, em especial os grandes centros urbanos e a região sul. Trabalhando em fábricas e já íntimos de brasileiros e portugueses que lutavam por melhorias profissionais, criaram sindicatos e organizações que seriam fundamentais para a futura greve.

Após essa expansão de italianos e espanhóis, a elite brasileira adotou o discurso nacionalista de que o povo estrangeiro conspirava contra a nação que os acolheram. A divisão de classes que caracterizava a sociedade naquela época foi motivo suficiente para inspirar os trabalhadores a lutarem não só por melhores condições de trabalho, mas também de vida.

A greve geral

Já em 1917, uma onda de greves se espalhava pelo Brasil durante o primeiro semestre. A violenta repreensão das autoridades era uma resposta que a elite utilizava como forma de demonstrar força ao crescente movimento operário. Em 9 de junho, na porta da fábrica Mariângela, um jovem anarquista espanhol chamado José Martinez foi morto após ser alçado contra a cavalaria durante um dos protestos. A mobilização por sua morte contagiou grande parte da população, que três dias depois representava mais de 70 mil trabalhadores em greve.

Os trabalhadores, em grande maioria mulheres, chegavam a exercer 16 horas por dia de trabalho, em condições precárias e recursos escassos. Por causa dessa fragilidade, um comitê chamado de “Defesa Proletária”, foi criado para defender seus interesses, tendo Edgard Leuenroth como porta-voz das negociações.

Somente em 16 de julho, mais de um mês da greve iniciada, os patrões fecharam um acordo com os empregados, prometendo melhorias e um aumento significativo no salário. Apesar da negociação ser concretizada entre autoridades, organizações trabalhistas e rurais mediadas por jornalistas, e os empregadores, ainda sim, em partes do país ainda acontecia a realização da greve. Sendo assim, após todos os setores chegarem ao acordo final com seus patronatos, a greve foi oficialmente encerrada no dia 18 de julho.

A greve teve impacto tão grande que foi aceita por grande parte da sociedade durante seu período de ação. As melhorias de fato aconteceram, apesar da consolidação dos direitos acontecer somente em 1943, com Getúlio Vargas na presidência. Por fim, o violento período expôs o governo influenciado pela elite brasileira que taxava anarquistas e estrangeiros como culpados de diversos crimes, além da prisão e humilhação em público de brasileiros que tinham a ideologia socialista e mantinha participação ativa nos protestos.